ASSUSTADORES&MISTERIOSOS

A Serial killer mais infame da África do Sul

Ela queria acabar com a própria família.

Introdução

Deixe de lado tudo o que você imagina quando pensa em serial killers: ➖ Nomia Rosemary Ndlovu foge completamente desse perfil.

​ O caso de hoje é uma história quase inacreditável. Vamos falar de uma serial killer que também era policial — uma profissão muito importante na comunidade onde ela nasceu e foi criada, até por dar um certo status. Ela é fria. Quando pensamos em serial killer, pensamos naquela pessoa calculista, quase sempre narcisista e com traços de psicopatia. No julgamento, essa mulher agia com um certo deboche de toda a situação, demonstrando aquela falta de remorso e de arrependimento tão características: não chora, não pede perdão, não diz e nem insinua estar arrependida. E ao contrário de muitos serial killers conhecidos — cujos crimes foram associados a motivações sexuais, desejo de dominação, canibalismo, necrofilia, vingança ou outras motivações pessoais —, o caso de Nomia Rosemary Ndlovu tinha um elemento central muito mais objetivo: dinheiro. Ela tem esse desprezo pela vida, pela dor e pela condição humana. Essa mulher é inacreditável e hoje você vai conhecer um pouquinho dela. A história de Nomia vai te surpreender. Preparados?

Nomia Rosemary Ndlovu

📍Bushbuckridge, Mpumalanga; Tembisa, Gauteng — África do Sul. Período: 2012–2018 Caso: Solucionado | Condenada.

Suas raízes

Bushbuckridge, Mapulaneng. Crėdito da imagem: Wikipédia. Restaurada digitalmente por A&M.


Rosemary nasceu por volta de 1978, na região de Bushbuckridge, na província de Mpumalanga, e cresceu em New Forest Village, onde passou a infância e juventude.

New Forest Village é uma pequena comunidade rural de Bushbuckridge, na província de Mpumalanga, África do Sul. Historicamente marcada pelo Apartheid, a região tem clima quente e vegetação de savana, e sua população é predominantemente negra, formada principalmente pelos grupos Tsonga (Shangaan) e Sepedi (Sotho). A comunidade vive em condições de infraestrutura precária, com falta frequente de água potável, cortes de energia e ruas sem pavimentação. O desemprego é elevado, e muitas famílias dependem de benefícios sociais, trabalho informal, pequena agricultura de subsistência e do dinheiro enviado por parentes que trabalham em grandes centros, como Joanesburgo. Apesar das dificuldades, New Forest Village mantém fortes tradições culturais e religiosas. O cristianismo, especialmente as igrejas pentecostais e a Igreja Cristã de Sião (ZCC), convive com práticas da espiritualidade tradicional africana, como o respeito aos ancestrais e a consulta a curandeiros tradicionais.

Antes de vestir a farda

Segundo a jornalista Naledi Shange do Times Live(Johanesburgo), que fez uma entrevista impressionante com dona Maria Mushwana, mãe de Nomia, a casa onde essa mãe criou todos os filhos incluindo Nomia, ainda hoje ė sem pavimentação tanto dentro e fora da residência. Rosemary perdeu o pai ainda não juventude, e foi criada pela mãe junto dos irmãos, em uma comunidade rural e de poucos recursos, como já mencionei, dentro de uma família em que a religião cristã tinha presença importante. A irmã Joyce, (também há, no mesmo site, a entrevista com a Joyce)descreveu a relação entre as duas como próxima e disse que Rosemary era brincalhona antes de, segundo ela, “mudar de repente. Não há relatos de que, além das dificuldades comuns à realidade de uma família de renda muito baixa, faltassem cuidados, amor e união dentro de casa. Rosemary estudou o ensino primário e secundário em Mpumalanga. Depois, mudou-se para Joanesburgo em busca de novas oportunidades.

Ingresso e atuação no serviço polícial

Nomia durante o período em que trabalhava como policial. Crédito da foto: TimesLIVE.


Em 2008, Nomia ingressou na polícia sul-africana, no Serviço de Polícia da África do Sul — o SAPS — passando por todo o treinamento formal da corporação. E posteriormente chegou ao posto de sargento. Ao terminar o treinamento ela foi designada para a delegacia de Tembisa, na região de Tembisa South, no distrito de Ekurhuleni, em Gauteng. Ali, Nomia trabalhou por anos, atuando tanto no atendimento direto nas ruas quanto nas tarefas administrativas, até chegar à patente de Sargento. Porém, a trajetória de Nomia Rosemary Ndlovu dentro da polícia revela um contraste impressionante entre a imagem que ela mostrava ao mundo e a vida que escondia fora do trabalho. No dia a dia, ela recebia o público, registrava ocorrências e fazia rondas — e para todos que a conheciam por ali, parecia uma mulher exemplar. Na delegacia e na comunidade, ela era vista de forma impecável. Para a maioria dos colegas e vizinhos, era uma policial dedicada, querida e muito respeitada. Estava sempre de farda ou com roupas bem arrumadas, conversava com todos com atenção e, era muito prestativa com todos. Tanto no trabalho, como família, colegas e amigos. E mesmo trabalhando, quando alguém ou ela própria perdia um ente querido, ela dava um jeito e se fazia presente. Ela demonstrava uma compaixão que parecia genuína — ia aos velórios, ajudava a organizar homenagens, e com isso, ninguém jamais imaginou que havia algo de errado.

O respeito e a admiração da família

É importante destacar que sua mãe, seus irmãos e os demais familiares tinham muito orgulho de Nomia por ela ter se tornado policial. Para uma família simples, de baixa renda e com poucas oportunidades de estudo, conquistar uma profissão como aquela era motivo de muita admiração e respeito. Por isso, dentro da família, Nomia era recebida com consideração e confiança. Quando visitava os parentes, era recebida com chá e bolo, convidada para festas e encontros familiares e tratada como alguém que havia conquistado uma posição de respeito. Essa relação de confiança seria importante mais tarde, quando ela passou a convencer alguns familiares a contratar apólices de seguro.

Nomia tinha UM problema

Dividas.

Muitas dívidas!

Emperors Palace, complexo de resort, cassino e entretenimento em Kempton Park, Ekurhuleni|África do Sul. Crédito da fotos: ekurhuleni.gov.za


Por trás de tudo isso, do trabalho e da aparente boa relação com a família, havia uma dívida que crescia cada dia mais: Nomia era viciada em jogos de azar. Passava horas dentro de cassinos locais, como o famoso Emperors Palace, em Ekurhuleni, e apostava valores muito maiores do que o salário de uma sargento da polícia poderia pagar. Para tentar recuperar o que perdia, ela apostava ainda mais — e quando o dinheiro acabava, ela recorria a agiotas. Foi assim que começou a acumular dívidas e mais dividas e com juros altíssimos, e logo as cobranças e ameaças passaram a persegui-la! O agiotas iam a casa dela, e até mesmo dentro do trabalho. A situação saía de uma simples cobrança. Eram ameaças e pressão. O caos era total, e o vício não parava. Até que Nomia encontrou a pior das saídas.

A saída: apólices de seguro

para a família toda e o namorado

Em algum momento, no caos do vício em cassinos, Nomia Rosemary Ndlovu decidiu usar a própria família como fonte de renda. Por ser policial, ela tinha acesso a informações e sabia exatamente como burlar a burocracia dos seguros. Ela montou um esquema de fraudes baseado em explorar falhas no sistema, roubar identidades e falsificar documentos — tudo sem que ninguém desconfiasse, usando a confiança e admiração da própria família como escudo.

Na África do Sul, os seguros de vida e auxílios-funeral têm regras simples: qualquer um pode incluir parentes sem a presença ou assinatura deles. Nomia aproveitou isso ao máximo. Abriu vários planos em empresas diferentes para a mesma vítima e até mentia o grau de parentesco, declarando o primo como marido para conseguir valores maiores. Quando o contrato exigia a presença da pessoa, ela falsificava assinaturas ou se passava pela vítima — como fez ao se fingir de irmã para assinar uma apólice de 720 mil rands.

O detetive que descobriu tudo!

Detetive Keshi Mabunda, investigador principal. Credito: TIMES LIVE.


O detetive Keshi Mabunda contou que estava trabalhando na delegacia de Olifantsfontein em 2015 quando percebeu Nomia entrando com uma grande quantidade de documentos de seguros. Aquilo chamou sua atenção. Ele passou a investigar os documentos e descobriu várias apólices, além de antigos processos de mortes que estavam registrados como inquéritos ou mortes a esclarecer. Ele reuniu esses materiais e começou a cruzar as informações. A dimensão do esquema só veio à tona com o detetive Keshi Mabunda, que trabalhou rápido e foi a fundo nas investigações. Ele descobriu que Nomia colocou cerca de 28 parentes e amigos como alvos e já preparava mais 50 apólices ao ser presa. Para uma única vítima, chegava a abrir seis apólices simultâneas em seguradoras diferentes. O detetive Keshi Mabunda cruzou os dados e encontrou o padrão sinistro: uma morte brutal e misteriosa na família e, dias depois, depósitos altos caindo na conta de Nomia. As investigações reuniram todas as prova necessárias para levar o caso ao tribunal.

Agora que conhecemos o plano e o esquema, vem a pior parte.


As Vítimas da Ganância

“Ela se nomeou como beneficiária para poder receber o seguro de vida e o seguro funeral.” Promotora Riana Williams

As vidas encerradas, a Perícia e a Brutalidade

Enquanto grande parte da cobertura midiática se ateve às atitudes bizarras da ré durante o julgamento, a realidade contida nos laudos periciais e nas autópsias revela uma história de terror frio, calculado e devastador. Por trás de cada apólice de seguro cobrada, existia um ser humano que confiava em Nomia Rosemary Ndlovu — uma policial que usou seu distintivo e sua posição familiar para atrair parentes para a morte. Abaixo, resgatei a essência e a verdade médica e forense sobre o fim de cada uma das seis vítimas(confirmadas), de Nomia Rosemary.


1ª Vítima

— Witness Madala Homu (Primo)

Primo de Rosemary (filho da irmã de sua mãe). Homem de 29 anos, simples, reservado e de hábitos humildes. Trabalhava duro para se sustentar e costumava voltar a pé do trabalho para economizar. Tinha total confiança em Nomia Rosemary por ela ser policial e uma figura de autoridade na família.

A emboscada e o desaparecimento:

Madala voltava do trabalho e não chegou em casa. Em 31 de março de 2012, Rosemary contatou a família alegando que não conseguia falar com ele. No dia seguinte, ela se juntou às buscas para simular preocupação.

Encontro do corpo e local:

Encontrado no dia 1º de abril de 2012, jogado em uma área de vegetação/mata fechada na região de Olifantsfontein. Jogado como se não fosse nada. O corpo estava sem documentos de identificação, sendo necessário o recolhimento de impressões digitais pela perícia.

A cena do crime e estado do corpo:

O policial que atendeu a ocorrência relatou que os pés de Madala estavam amarrados com um fio. O corpo apresentava sinais extremos de violência.

Laudo pericial e causa da morte:

Embora reportagens iniciais tenham citado lesões por objeto contundente na cabeça, a médica legista responsável pelo laudo oficial citado na sentença concluiu que a causa primária da morte foi estrangulamento ou aplicação de força mecânica extrema no pescoço, provocando intensa hemorragia interna. E sim, o policial que viu o corpo primeiro, disse que além dos pés amarrados, Witness havia sido espancado violentamente na cabeça.

A família dele só recebeu a confirmação oficial da morte na noite de 2 de abril.

2ª Vítima

— Audrey Somisa Ndlovu (Irmã)

Única foto de Audrey que encontrei. Crédito:BBCNews.


Irmã de Rosemary, de 33 anos. Trabalhava como vigilante/segurança e vendia cosméticos e vasilhas de plástico para complementar a renda. Audrey era uma mulher extremamente vaidosa, comunicativa e querida na comunidade de Tembisa, onde gostava de conversar com os vizinhos nas calçadas.

A farsa e a invasão:

Rosemary esteve no quarto alugado de Audrey em Tembisa no dia anterior ao crime. A acusação provou que Nomia colocou uma substância venenosa no chá da irmã. Enquanto o veneno agia e incapacitava Audrey, a própria Rosemary a estrangulou até a morte.

Encontro do corpo e local:

Encontrada em 26 de junho de 2013, morta sobre a cama em seu quarto alugado em Tembisa. A porta de segurança do imóvel estava trancada por fora, enquanto a porta de madeira estava encostada.

Adulteração da cena do crime (Obstrução da Justiça):

Rosemary apareceu na residência anunciando aos gritos que a irmã estava morta. Vizinhos entraram e viram o corpo. No local, havia duas xícaras usadas. Mesmo sendo advertida por vizinhos para não mexer em nada até a chegada da perícia, Rosemary pegou as xícaras e as afundou em um balde com água para lavar os vestígios do veneno — ato que lhe rendeu uma condenação específica por obstrução da Justiça.

Laudo pericial e causa da morte:

A autópsia confirmou a presença de substância tóxica/envenenamento combinada com asfixia mecânica por estrangulamento.

3ª Vítima

— Yingwani Maurice Mabasa (Companheiro)

Maurice Mabasa, companheiro e pai de uma bebê de 6 meses na época, fruto do relacionamento com Nomia. Crédito: TimesLIVE.


Nomia e Maurice viveram juntos por três anos, na casa dele em Tembisa. Maurice era muito amado e tinha um papel central na vida da mãe, pois estava sempre fazendo o que podia para presenteá-la. Antes de falecer, ele estava construindo uma nova casa para sua mãe. Ele também era conhecido por seu amor à vida e sua generosidade. Ele teve uma filha com Nomia Rosemary, Makhanani Mabasa, que faleceu em 2017, aos dois anos de idade. O laudo de necropsia não conseguiu descobrir o que causou a morte da bebê. “Impossível não pensar o mesmo, você não acha?”

O desaparecimento e a encenação:

Maurice saiu para o trabalho em 13 de outubro de 2015 e não retornou. Nomia foi até a delegacia de Olifantsfontein para registrar o desaparecimento, onde foi informada de que um cadáver masculino não identificado havia sido encontrado naquela mesma manhã.

Encontro do corpo e local:

O corpo foi localizado em 14 de outubro de 2015, jogado em um terreno baldio próximo a um aterro sanitário e à delegacia de polícia de Olifantsfontein.

Laudo pericial e brutalidade dos ferimentos:

O laudo necroscópico e a sentença judicial registraram um ataque de extrema selvageria: Maurice foi atingido por aproximadamente 80 perfurações por golpe de facão. O corpo apresentava múltiplos ferimentos de defesa nas mãos e braços, demonstrando que ele lutou desesperadamente antes de morrer. Todos os seus pertences pessoais e documentos continuavam com ele, descartando qualquer hipótese de latrocínio (roubo seguido de morte).

Mesmo em Gauteng, onde a violência pode ser inimaginavelmente cruel, aquele número pareceu excessivo, profundamente pessoal e perturbadoramente emotivo, para todos.

4ª Vítima

— Zanele Motha (Sobrinha)

Zanele Motha. Credito da imagem: TimesLive. Imagem restaurada digitalmente.


Sobrinha de Rosemary, de 27 anos, e irmã de Mayeni Mashaba. Jovem dócil, muito vaidosa, vaidosa com os cabelos e cheia de planos para o futuro. Zanele tinha 3 filhos muito pequenos.

A escalada da violência:

Zanele estava hospedada na casa de Rosemary quando sofreu uma primeira agressão “misteriosa”. Em 13 de junho de 2016, foi levada ao Tembisa Hospital com escoriações no rosto e mãos (a versão contada foi um falso atropelamento por bicicleta) e recebeu alta no dia seguinte.

O ataque fatal e lesões internas:

Na madrugada de 16 de junho de 2016, Zanele foi socorrida em estado gravíssimo e levada ao Arwyp Hospital, em Kempton Park, não resistindo aos ferimentos pouco após dar entrada.

Laudo pericial e causa da morte:

O exame cadavérico desmentiu a versão acidental e revelou espancamento severo por força bruta contundente: Zanele teve quatro costelas fraturadas, lesões graves no fígado (laceração hepática) e hemorragia interna maciça, provocadas por agressões brutais no tórax e abdômen.

5ª Vítima

— William “Mayeni” Mashaba (Sobrinho)

Sobrinho de Rosemary, William tinha 26 anos, e era irmão de Zanele Motha. Jovem focado, protetor com a família e que buscava ativamente um emprego para alcançar sua independência.

A emboscada:

Mayeni combinou de se encontrar com Nomia, a tia, em Daveyton sob a promessa de que ela o ajudaria a conseguir um trabalho. No dia 9 de abril de 2017, esteve com a tia. Posteriormente, Rosemary alegou em depoimento que apenas lhe dera uma carona e o deixara em um posto de combustível na rodovia R21 a caminho de Pretória.

Encontro do corpo e local:

Seu corpo foi encontrado em 10 de abril de 2017, abandonado em uma área isolada na região de Olifantsfontein (próximo à Delmas Road).

Laudo pericial e prova pericial decisiva:

Mayeni apresentava traumatismo craniano severo por espancamento e um disparo de arma de fogo na cabeça.

O detalhe crucial registrado pela investigação:

No local onde o corpo foi achado, um policial usou o celular da própria vítima que estava no bolso e discou para o último número da lista de chamadas efetuadas. O telefone que tocou do outro lado da linha foi o de Nomia Rosemary Ndlovu.

6ª Vítima

— Brilliant Mashego (Sobrinho / Filho de Audrey)

Jovem de 21 anos, sobrinho de Rosemary e filho de Audrey Somisa Ndlovu (a 2ª vítima). Rapaz inteligente e muito apegado à memória da mãe. Brilliant começou a desconfiar abertamente do envolvimento da tia na morte de sua mãe após notar irregularidades e contradições no dinheiro dos seguros de vida cobrados por Nomia.

A atração para a armadilha:

Para silenciar as suspeitas do sobrinho, Nomia prometeu-lhe um emprego em Mpumalanga. Registros de antenas de telefonia celular provaram que ambos viajaram juntos de Joanesburgo para Bushbuckridge. Ele foi visto vivo com ela pela última vez em 22 de janeiro de 2018.

Encontro do corpo e local:

O corpo de Brilliant foi localizado em 24 de janeiro de 2018, em um matagal próximo ao mercado de Dwarsloop, em Bushbuckridge.

Laudo pericial e brutalidade:

O laudo apontou execução por traumatismo crânio-encefálico extremo. Brilliant foi atacado com golpes violentos de objeto contundente (provavelmente um bastão ou porrete de madeira) na cabeça, sofrendo fratura exposta do crânio.

Pelos seis assassinatos que executou:

ela recebeu mais de 1,4 milhão de rands (cerca de R$ 400 mil a R$ 450 mil). A morte da irmã Audrey foi a mais “rentável”, rendendo mais de 717 mil rands(aproximadamente R$ 226 mil a R$ 227 mil).

O “universo” começa a conspirar contra Nomia

Gladys Ndlovu — a prima que sobreviveu

Gladys Ndlovu, também conhecida como Nomasonto, era prima de Nomia Rosemary Ndlovu — embora, dentro da família, fosse tratada como irmã. Em determinado momento, Gladys também entrou na mira de Nomia. Segundo as provas apresentadas no julgamento, Nomia procurou pessoas ligadas ao submundo do crime para encontrar alguém que pudesse matar Gladys. Entre os elementos apresentados no caso estavam questões financeiras e apólices de seguro contratadas em nome dela. O plano, porém, não foi executado. Os homens procurados para realizar o assassinato se recusaram a cumprir o serviço. Posteriormente, surgiu uma nova estratégia com novos matadores contratados: levar Gladys para Kempton Park, oferecer-lhe bebida e colocar uma substância na bebida para deixá-la vulnerável antes de matá-la. A conspiração acabou chegando ao conhecimento da polícia.

Os matadores…

Aqui começa algo interessante, que voltaria a se repetir mais de uma vez. Os matadores se recusavam a cumprir o serviço e iam além: denunciavam Nomia à polícia.

Ao saber que sua vida estava em risco, Gladys deixou a casa que alugava em Phomolong e passou a se esconder. Gladys não foi assassinada. Apesar de ter sobrevivido e de ter sido apontada como alvo nos planos de Nomia, o caso não culminou em uma das seis penas de homicídio responsável por sua prisão perpétua. A conduta, neste episódio, foi enquadrada como conspiração para homicídio. Os matadores contratados, depuseram no julgamento posteriormente.

A lista não terminava nas seis vítimas

Joyce Ndlovu, irmã de Nomia. Joyce seria incendiada com os 5 filhos, todos enquanto dormiam! Credito: TimesLIVE.


Joyce e os 5 filhos

O esquema de Nomia Rosemary Ndlovu não havia terminado. Claro que não. A família era grande e ela tiraria a vida de cada um, se precisasse!

O plano de Nomia não ruiu por causa das seguradoras, que nunca desconfiaram de nada. Ele caiu pela própria ganância, quando ela foi contratar quem faria o próximo assassinato. No início de 2018, ela pagou um homem para incendiar a casa da irmã Joyce e dos cinco filhos dela — enquanto dormiam, vivos. O contratado, Njabulo Kunene, ficou horrorizado com a ideia de queimar crianças e foi direto à polícia denunciar tudo.

Quem recebeu a denúncia foi o Coronel Nthipe Lazarus Boloka — comandante da própria delegacia de Tembisa South, onde Nomia trabalhava. Ele foi quem ouviu o relato e tomou as rédeas. Os investigadores montaram então uma operação secreta: um agente disfarçado se passou por novo executor e gravou Nomia explicando, nos mínimos detalhes, como mataria a família e em qual hospital se internaria para criar um álibi perfeito. Na gravação, o suposto matador questiona, pede que ela detalhe como quer que tudo aconteça — e pergunta sobre o que fazer com as crianças.

“Queime todos, sem deixar ninguém escapar”

Parte da gravação no carro de Nomia Rosemary. Credito: TimesLIVE. No YouTube, tem a opção de legenda em português.


— As instruções de Nomia

aos questionamentos do “matador”.

“Eu quero que a casa pegue fogo de noite, quando todos estiverem dormindo. Ninguém pode escapar. Tem que parecer acidente, como se o fogo tivesse começado sozinho.”

“Não importa se tem crianças dentro. Eles têm que morrer todos. Se sobrar alguém, descobre-se e eu perco tudo. Queime tudo até o fim.”

“Usa gasolina, deixa perto das portas e janelas. Assim ninguém consegue sair. O fogo fecha todas as saídas ao mesmo tempo.”

Tudo por dinheiro

“Quando eles morrerem, eu recebo o dinheiro do seguro. São muitas apólices, vai dar mais de meio milhão de rands. Te pago 50 mil quando terminar.”

“Não se preocupa, ninguém vai descobrir. Eu sou policial, sei como funciona a investigação. Eles vão achar que foi só um acidente triste.”

SOBRE O ÁLIBI

“Na hora do fogo, eu vou estar no hospital, fazendo exame. Vou ter atestado, vou ter testemunhas. Ninguém vai me ligar a isso.”

“Depois me liga só quando tudo estiver acabado e o fogo apagado. Não me procura antes, ninguém pode nos ver juntos.”

A ORDEM DE PRIORIDADE

“A minha irmã(Joyce) é a primeira. Depois os filhos, um por um. Mas de uma vez só é melhor, mais seguro e mais rápido.”

➖ Não sei exatamente como fechar este capítulo: o que vem a seguir parece até difícil de acreditar. Tome um café ou um chá. Prepare-se!

O último limite cruzado: quando a mãe virou alvo

Dona Maria Sophie Mushwana. Fotografias tiradas dentro do tribunal.Crédito da imagem: TimesLive. Edição digital.


Agora, a vez era da própria mãe

​A tentativa de assassinar Maria Sophie Mushwana é, talvez, o capítulo mais devastador de toda essa história. O motivo continuava o mesmo — dinheiro —, mas a vítima, desta vez, não era alguém qualquer. Era sua mãe. A mulher que, após ficar viúva, criou os filhos sozinha com suor e sacrifício.

​Dona Maria trabalhava de sol a sol como doméstica e faxineira, além de vender na rua os legumes e raízes que cultivava no próprio quintal, tudo para garantir o sustento da família. Uma mãe amorosa e dedicada que deu tudo o que podia para, no fim, receber o pior em troca. Aos 80 anos, já idosa e frágil, ela foi reduzida a um número, uma apólice de seguro e um alvo.

Ela teve tempo para mudar de ideia

No fim de 2017, após receber alta do Arwyp Hospital, em Kempton Park, Nomia Rosemary Ndlovu tomou uma decisão. Durante os dias em que esteve internada, ela teve tempo para pensar, repensar e, quem sabe, mudar de ideia. Mas não mudou. Ela tomou uma das decisões mais assustadoras de sua vida: a próxima vítima em sua lista seria sua própria mãe, Dona Maria Sophie Mushwana.

A internação no Arwyp Medical Centre aconteceu em um momento de extremo desgaste. Nomia tentava equilibrar a fachada de policial exemplar com a logística fria dos assassinatos, enquanto afundava no vício compulsivo em jogos e em dívidas sufocantes com agiotas. Assim que deixou o hospital, ela simplesmente retomou o plano de onde havia parado.

O executor contratado

Para colocar o novo plano em prática, Nomia recorreu a um velho conhecido do crime: Lakhiwe Mkhize. Mkhize não era um matador qualquer. Ele atuava como uma espécie de intermediário (middleman) no submundo do crime em Tembisa e arredores — o tipo de pessoa ideal para fazer a ponte entre quem queria encomendar um “serviço” e quem estava disposto a executá-lo por dinheiro. E Nomia conhecia aquele ambiente de perto.

Como sargento da delegacia de Tembisa South, a rotina policial permitia que ela mantivesse contato frequente com informantes e criminosos locais. Foi justamente nessa linha tênue entre a polícia e o crime que ela conheceu Mkhize e firmou sua aliança. E, desta vez, a encomenda era alguém que deveria ser intocável: a mulher que lhe deu a vida. E o próprio Mkhize seria o matador. O reencontro com Mkhize seria decisivo para o destino de Dona Maria.

Mas Nomia jamais poderia imaginar o que aconteceria a partir daquela aliança: o homem que ela procurou para ajudar a assassinar sua própria mãe acabaria fazendo justamente o contrário.

Pagamento e instruções

Ela ofereceu R15.000( 15 mil rand sul-africanos são aproximadamente R$ 4.737 reais) pelo serviço completo de matar Maria, entregando R2.600(aproximadamente 821,14 reais) como pagamento inicial. Para não levantar suspeitas, decidiu não agir diretamente — mas foi ela mesma quem levou Mkhize até a região (ele vinha de KwaZulu-Natal e não conhecia o local). Chegando lá, Nomia apontou especificamente a casa da própria mãe. Deixou Mkhize ali para executar o crime e voltou para Joanesburgo de táxi, confiante que o serviço seria feito.

A instrução era clara: Maria deveria ser queimada viva dentro de casa, simulando um incêndio acidental ou um ataque por roubo.

O MOMENTO EM QUE O EXECUTOR RECUA

Imagens ilustrativas…

Imagens ilustrativas de residências rural em Thulamahashe, região de Bushbuckridge, Mpumalanga, semelhante ao ambiente descrito pela jornalista Naledi Shange durante sua visita à casa de Maria Sophie Mushwana. A jornalista menciona que a residência não tinha pavimentação nem dentro nem fora da casa. A fotografia não corresponde à residência de Maria. Somente dão uma noção do ambiente. Crédito da foto: Property24.


Mkhize chegou à casa de dona Maria e entrou na residência — e não encontrou uma casa vazia. Encontrou a idosa humilde, vulnerável, franzina e uma criança (netinha de dona Maria, filha da falecida irmã de Nomia, Runny). Sem saber quem ele era ou o que fazia ali, Maria o tratou com imensa hospitalidade e carinho maternal: ofereceu água, comida e uma cadeira para se sentar. Confrontado com essa gentileza extrema, Mkhize sentiu remorso e uma profunda repulsa pelo que lhe fora encomendado. (Ele diria no julgamento mais tarde que sentiu repulsa por Nomia.)

Ele percebeu a crueldade daquele “serviço ” — a própria filha da vítima — estar pedindo isso. Ele não matou dona Maria nem a netinha dela. Pediu água (como pretexto, depois de decidir desistir) agradeceu e foi embora. Depois, pegou um táxi e retornou para Gauteng.

No dia seguinte, Nomia ao saber que a mãe não morreu, ela ficou irritada e chateada com Mkhize porque ele não havia cumprido o serviço. Ele passou a evitar o contato com ela. Ele a bloqueou de tudo.

(Nota do autor: ela ficou chateada porque a mãe não havia sido queimada viva!)

​A investigação silenciosa

​2015 a 2018

Para o mundo, as mortes na família de Nomia Rosemary Ndlovu eram uma onda trágica de azar. Desde 2015, os parentes desconfiavam, mas o medo e a falta de provas calavam todo mundo. Só que, nas sombras, o Sargento Keshi Mabunda observava.

Por três anos, ele fez um trabalho minucioso. Reabriu arquivos de mortes tratadas como “causas naturais” ou “acidentes” e cruzou os dados. O padrão era macabro: Nomia abria apólices de seguro em nome dos parentes — sem eles saberem — e sacava a grana logo após os enterros. Sem a persistência de Mabunda, esses crimes teriam mofado para sempre nas prateleiras da delegacia.

A Viagem do Terror (7 de Março de 2018)

A frieza de Nomia nesse dia desafia a lógica. Ela estava internada no Carstenhof Medical Centre, mas conseguiu uma saída temporária. Entrou no carro com os homens que achava serem seus capangas (um deles era um policial infiltrado) e viajou até Bushbuckridge.

Motivo? Lembra do plano de incendiar vivos a irmã dela e os 5 sobrinhos pequenos? Estamos naquele momento.

Então, com total naturalidade, como quem aponta um ponto turístico, Nomia indicou a casa da irmã. O plano era milimétrico: voltar para o hospital, fingir que nunca saiu do leito e criar o álibi perfeito enquanto a irmã e os sobrinhos queimavam. Ela só não sabia que a polícia filmava cada segundo daquela viagem.

Finalmente presa

Aos 46 anos, Nomia foi algemada ali,no ponto de táxi. O Sargento Bekhi Zulu, da unidade de elite Hawks, deu a voz de prisão em flagrante. Mas o momento mais devastador veio logo depois. Imagine a cena: a polícia leva Nomia a casa da irmã. Chegando lá bate à porta de Joyce. Ela abre, esperando ver a rotina, mas dá de cara com investigadores que trazem uma notícia inacreditável. Cara a cara, os policiais revelam que Nomia — a própria irmã, o sangue do seu sangue — acabou de ser presa porque tinha encomendado a morte dela e de seus cinco filhos pequenos. O choque de descobrir que a pessoa em quem você confiava arquitetou a fogueira da sua família é uma cicatriz que documento nenhum consegue registrar. Joyce ficou atônita, e começou a chorar incontrolavelmente.

Dra. Riana Williams, a promotora do caso.

O PRÓPRIO FILHO? Quase todas as seguradoras da região!

Com Nomia atrás das grades em Sun City, a investigação continuou. A promotora Riana Williams descobriu que o horror era mais fundo: o próprio filho de Nomia, Jaunty Khoza, tinha morrido misteriosamente em 2008, aos 13 anos. Um órgão do menino ficou esquecido num laboratório por 11 anos sem análise. Quando finalmente examinaram em 2019, o tempo já tinha apagado os rastros de veneno, forçando a polícia a cogitar a exumação do corpo. Dra Riana também analisou todos os pedidos de indenizações que Nomia requeria das seguradoras e ela descobriu que várias seguradoras tinham apólices em nome de Nomia. Eram muitas! Ela sempre usava seguradoras diferentes.

E a cadeia não freou a mente de Nomia. Mesmo trancada, ela tentou contratar pistoleiros de dentro da cela para assassinar o investigador Mabunda, o coronel Boloka e os promotores. Ela queria matar quem a capturou. Diante do perigo, o Estado a transferiu às pressas para o presídio de segurança máxima Kgosi Mampuru II, em Pretória.

A Conta está chegando

Em 2021, após mais de três anos de espera, o rolo compressor da Justiça se fechou. A promotora Riana Williams unificou os dossiês. No tribunal, o Estado não falou em fatalidades, mas sim em um monstro predatório movido por dinheiro. Com os registros de seguros e a demolidora gravação em vídeo, a promotoria tinha o destino de Nomia traçado: prisão perpétua.

Julgamento

Nomia Rosemary Ndlovu. Crédito da imagem: eNCA

Tribunal: High Court of South Africa, Gauteng Local Division, Johannesburg. Processo: SS72/2019.

O QUE ACONTECEU NO TRIBUNAL —

Quando Nomia Rosemary Ndlovu entrou no tribunal, muita gente ainda não conseguia acreditar: era a mesma mulher que todo mundo conhecia — policial, simpática, sempre pronta a ajudar. Mas ali, diante do juiz, das famílias e de todo o país, foi se desmontando uma história pior do que qualquer pesadelo.

As provas que gelaram o mundo

A GRAVAÇÃO. Crédito: TimesLive.

A primeira coisa que chocou foi a gravação. Exibido ali no tribunal, diante de todos os presentes e assistido por milhões de pessoas no YouTube! Aquela voz calma, fria, sem nenhuma emoção, explicando exatamente como queimar a casa da própria irmã — com cinco crianças dormindo lá dentro. O agente disfarçado perguntou:

“E as crianças?”

E ela respondeu, sem hesitar:

“Não importa. Queimem tudo. Ninguém pode sair.”

Não havia raiva, não havia desespero. Era só negócio. Joyce , estava ali, sentada assistindo sem acreditar. Dona Maria baixou a cabeça. O silêncio que caiu na sala foi pesado demais.

Depois vieram os documentos: apólices de seguro em nome de cada parente que morreu. Em alguns casos, ela tinha dito que era esposa, mesmo não sendo casada. Em outros, declarou-se beneficiária sem a pessoa saber. O valor de cada vida estava escrito ali, frio, claro: dinheiro. Nada mais.

Os depoimentos que partiram o coração

O primeiro a falar foi Njabulo Kunene — o homem que ela contratou pra tocar fogo na casa da irmã.

Ele contou que aceitou o dinheiro, foi até lá, mas na hora… não conseguiu. Disse que pensou nas crianças dormindo e sentiu que não era humano fazer aquilo. Então fez a denuncia. Quando ele terminou de falar, muita gente na plateia chorou.

E Nomia? Ficou parada, olhando pra frente, sem mudar a expressão.

Depois foi a vez de Lakhiwe Mkhize — o homem que foi até a casa da mãe dela.

Ele contou que entrou, viu a senhora frágil, idosa, e que ela o recebeu com doçura: deu água, comida, tratou como filho. E que naquele momento ele percebeu que não conseguia. Disse:

“Ela não fez nada comigo. Me tratou bem. Como eu ia fazer isso?”

E então revelou: no dia seguinte, Nomia ligou irritada, perguntando por que ele não tinha matado sua mãe. Não perguntou se a mãe estava bem. Perguntou por que o serviço não tinha sido feito.

Dona Maria

Aí foi a vez de dona Maria — a própria mãe dela. A senhora de 80 anos entrou devagar, apoiando-se no bastão. E disse algo que partiu todo mundo:

“Minha filha não é capaz. Ela é policial. Ela cuida das pessoas.”

A promotora perguntou se ela entendia que a própria filha tinha colocado preço na vida dela. Dona Maria balançou a cabeça:

“Não acredito que ela quis me fazer mal. Deve ter havido um engano.” Fonte: Depoimento no tribunal — eNCA

Mesmo com tudo exposto, ela defendia Nomia. Não por escolha — mas porque o coração de mãe não consegue acreditar que a filha quer matá-la. E Nomia, ouvindo isso, baixou a cabeça e chorou. Foi a única vez que limpou os olhos. Mas não pediu perdão. Não admitiu nada.

Joyce

Joyce Ndlovu. Credito: TimesLIVE.

Depois foi o momento da irmã Joyce, a irmã que deveria ter morrido queimada com os filhos, disse com a voz tremida:

“Quando olho para aquele vídeo das provas, penso que eu e todos os meus filhos deveríamos estar mortos.”

“Eu confiava nela. Deixava meus meninos com ela. E ela planejava nos ver mortos. O pior não é a morte. É saber que quem sorria pra mim estava decidindo como nos matar.” Fonte: Sunday Times.

A explicação de Nomia—

Sobre a gravação

“Foi tudo uma encenação”

Quando chegou a sua vez de depor, Nomia Rosemary Ndlovu precisou explicar uma das principais provas apresentadas pela acusação: a gravação feita durante a operação policial, dentro do carro, na qual ela aparece conversando com os homens que acreditava serem integrantes do grupo contratado para matar sua irmã Joyce e os cinco filhos dela. Diante do tribunal, Nomia negou que estivesse realmente planejando aqueles assassinatos. Segundo sua versão, tudo o que ela falou naquela gravação havia sido combinado previamente. Ela afirmou que estava apenas repetindo o que os homens haviam mandado que dissesse e que suas respostas não representavam suas verdadeiras intenções. O Excelentíssimo juiz Monoma questionou:

— Então ouvimos corretamente que a senhora apenas repetiu respostas combinadas?

“Sim, vocês ouviram corretamente. Eu estava dando aquelas respostas no vídeo, mas respondia daquela maneira porque me disseram que era assim que eu deveria responder naquele dia.”

Nomia nunca admitiu nada. Disse que era armação. Que as provas eram inventadas. Que não sabia de nada. Mesmo quando tocaram a gravação com a própria voz dela, negou:

“Não sou eu. Editaram.“

Nomia não olhou nos olhos dos familiares. Não pediu desculpa a ninguém. Não mostrou nenhum sinal de que entendia o que tinha feito. Ao longo do julgamento, Ndlovu manteve sua inocência, chegando a acusar muitas das 50 testemunhas do Estado de mentir. (Fonte: The Herald)

Sobre as apólices

Promotora Riana Williams: “Quanto você recebeu em pagamentos de seguros?”

Nomia: “Não tenho certeza. As apólices não foram todas pagas ao mesmo tempo. Algumas foram contratadas por Audrey e algumas levaram meses para pagar.”

Promotora Williams: “Mas Audrey ganhava apenas R2.700 por mês. Como ela poderia pagar tantas apólices?”

Nomia não conseguiu explicar como Audrey havia colocado Nomia como única beneficiária de uma apólice, apesar de Audrey ter um filho. Lembram-se do Brilliant? Nomia também o matou. Ele deixou um filho de 8 meses.

Quando o juiz falou dia da sentença:

Excelentíssimo juiz Ramarumo Monama. Crédito: News24.


o juiz Ramarumo Monama leu tudo em voz firme. Disse que não havia remorso nenhum em Nomia. Que ela usou a confiança da família como arma. Que cada vítima confiava nela — e cada uma foi traída. E disse a frase que ficou marcada:

“Não há laço de sangue que tenha detido você. Irmã, primo, companheiro, mãe — todos eram apenas nomes em um papel. Isso é algo que a mente humana custa a aceitar.”

A Sentença

Sentença: em 5 de novembro de 2021, Nomia Rosemary Ndlovu foi condenada a seis penas de prisão perpétua pelos seis homicídios, além de penas por fraude contra as seguradoras Clientele, OneLife, Old Mutual e Assupol, obstrução da Justiça, tentativa de homicídio da própria mãe e incitação ao assassinato de Joyce Ndlovu e dos cinco filhos dela; também foi acusada de conspirar para matar Gladys Ndlovu, mas foi absolvida dessa acusação por falta de provas suficientes, e como as demais penas correram simultaneamente, a pena efetiva permaneceu prisão perpétua.

Quando ouviu, ela não gritou, não desmaiou, não reagiu. Ficou ali, parada, olhando. Como se ainda não acreditasse que tinha sido parada.

Oficialmente, ela foi considerada sã, responsável, consciente de tudo.

Juiz Ramarumo Monama — na sentença “Não houve nenhum laudo médico que justificasse o que fez. Você agiu com consciência, com planejamento, com frieza. Ninguém estava a salvo — nem irmã, nem primo, nem companheiro, nem a própria mãe. Todos eram apenas nomes em apólices de seguro.”

“A sociedade precisa ser protegida de alguém que mata quem deveria proteger.” Fonte: Transcrição oficial da sentença — High Court da África do Sul

E a reação lá fora

A imprensa a chamou de

“a serial killer da farda”.

O povo ficou chocado não só com as mortes — mas com a frieza. Que alguém consiga sorrir, abraçar, conversar com a família e ao mesmo tempo calcular quanto cada um vale morto. Que a própria mãe fosse um alvo. Que crianças fossem consideradas “parte do serviço”.

E o que mais doeu em todos: a mãe dela, dona Maria, saiu do tribunal dizendo que continuava acreditando na filha. Até o fim, ela não perdeu a esperança de que Nomia fosse inocente. Mesmo com tudo provado. Mesmo assistindo, ouvindo a gravação. Mesmo vendo ali na gravação Nomia falando, instruindo como queimar vivos sua outra filha Joyce e seus 5 netos. Mesmo com a própria filha condenada.

O show de horrores no tribunal

O contraste entre o sofrimento das famílias e a postura de Nomia

Crédito: Alaister Russell/The Sunday Times

Enquanto a família chorava do lado de dentro, e as vítimas e seus entes queridos lutavam pra conseguir respirar naquela sala, Nomia fazia algo que chocou todo mundo: transformou o próprio julgamento num palco. Nas sessões em que aparecia diante das câmeras, ela não baixava a cabeça. Não escondia o rosto. Pelo contrário: olhava direto para as lentes, fazia expressões, mudava a cara de um momento pro outro.

– Em alguns momentos, sorria levemente, como se estivesse ali pra uma entrevista, não por ter seis vidas na consciência

– Em outros, fazia biquinho, ela mostrava as unhas feitas, franzia a testa, levantava o queixo de forma provocadora

— parecia estar posando pra foto

– Quando a câmera focava, ajeitava o cabelo, arrumava a blusa, se certificava de que estava bem visível

– Havia dias em que entrava com ar de vítima injustiçada, olhando com olhos grandes e tristes pra tudo quanto é lente

– Em outros, cerrava os olhos e fazia cara de desafio, como se estivesse dizendo “não vão me pegar”. Os jornalistas notaram que ela sabia exatamente onde estavam as câmeras. Sempre que podia, posicionava-se de forma que aparecesse bem. Não parecia uma mulher julgada por crimes horríveis

— parecia uma pessoa buscando atenção.

Como a imprensa retratou Os jornais não conseguiram ignorar aquilo. As manchetes foram diretas:

– “A serial killer que posava para as câmeras no tribunal”

– “Nomia faz caretas enquanto vidas são destruídas”

– “Sem remorso, ela transforma julgamento em palco”

Uma repórter descreveu assim:

“É perturbador. Você espera ver vergonha, pesar, qualquer sinal de humanidade. O que se vê é desempenho. Cara de coitada, depois cara de durona, depois sorriso leve — tudo cronometrado, tudo na hora certa da foto.”

Outra publicação destacou:

“Ela não demonstra respeito nem pelas vítimas, nem pela família, nem pelo tribunal. Parece achar que é protagonista de algo que não é real.”

O site TimesLIVE chamou atenção para o contraste:

“Enquanto ela posa, mães choram ao fundo. Enquanto ela sorri, quem perdeu um ente querido não consegue nem olhar pra frente.”

O contraste perceptível

O que mais chocou quem acompanhou foi a diferença entre os dois lados da sala:

– Do lado das vítimas: silêncio, lágrimas, cabeças baixadas, dor contida

– Do lado de Nomia: olhares calculados, expressões trocadas, atenção total nas câmeras. Ela não parecia entender — ou não se importava — que cada pessoa ali tinha perdido alguém. Que cada foto dela, cada pose, era como um tapa na cara de quem sofria. Alguns familiares disseram depois que não conseguiam acreditar no que viam. Que era como se ela não estivesse no mesmo lugar que eles. Que para ela, talvez tudo isso fosse mesmo uma espécie de teatro, onde ela era a estrela.

Ela ė inacreditável!

Lembra que eu te disse isso?

Assim que ouviu sua sentença, ela se virou para os parentes na galeria do tribunal e disse, em tom ameaçador, algo como: “Eu vou passar o Natal na cadeia, mas eu vou voltar.”

O que a imprensa, e quem acompanhou pela TV, pelo YouTube ou presencialmente, concluiu: Nomia não sentiu nada. Não pelas vítimas, não pela família. Essa ė a impressão que temos. Mas não posso afirmar como verdade. A&M


“O mal não é nada de extraordinário. É sempre humano, e compartilha da nossa cama e come à nossa mesa.”

— W. H. Auden

Fontes: pesquisa e imagens

– TimesLIVE- News24- SABC News- eNCA- High Court of South Africa — Gauteng Local Division, Johannesburg- Sowetan- The Citizen- BBCNews- The Herald- The Sunday Times- News24- Property24

Esse resumo do caso que o Crime Time Tales, fez ficou muito bom. Se você assistir pelo YouTube tem a opção de legenda em português.


Galeria de imagens de Nomia no tribunal.
Opinião A&M

Oi, gente. Afinal, Nomia tirou a vida de seis familiares — incluindo o próprio companheiro, pai da sua bebê de apenas 8 meses — só para bancar o vício em jogos. Meu foco sempre foi escancarar a frieza e a brutalidade de tudo isso. Conheci essa história de um jeito revoltante: em um vídeo no YouTube onde a narradora tratava a assassina quase como uma “serial killer engraçada”. Isso me causou um nó no estômago. Como alguém consegue achar graça numa mulher que destruiu a própria família e ainda planejava queimar a mãe e a irmã com cinco crianças vivas? Enquanto ela fazia piada, as famílias das vítimas continuavam despedaçadas.Foi essa indignação que me fez ir atrás da verdade. Eu precisei pesquisar quem eram essas pessoas, o que gostavam, quem era aquele pai e o que significava uma vida de apenas 8 meses interrompida assim. Eu não queria focar no show de deboche, nas caretas e poses que ela fez no tribunal. Mas é impossível fechar este caso sem mostrar essa postura nojenta, que foi o último tapa na cara de cada família que sofria ali.Um grande abraço e até o próximo caso. A&M

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