
📍San Diego, Califórnia | Estados Unidos. Caso solucionado. Crime em massa.
Início da Família Spencer

Wallace Edward Spencer e Dorothy Nadine Hobel. Credito da imagem: ModusOperandi.
A história dessa família começa em 12 de dezembro de 1954, em Chula Vista, subúrbio pacato de San Diego, Califórnia. Wallace Edward Spencer, 25 anos, e Dorothy Nadine Hobel, apenas 19, deram o passo seguinte: se casaram. De fora, parecia o início de um típico e promissor romance americano do pós-guerra. A vida profissional logo se firmou. Dorothy era determinada: concluiu o bacharelado em Negócios logo no início do casamento, seguiu estudando, abriu seu próprio escritório de consultoria e construiu sólida reputação. Wallace, mais discreto, trabalhava como técnico de manutenção na Universidade Estadual de San Diego. Para todos, eram um casal comum e batalhador.
A família cresceu: em 1956 nasceu Scott Matthew; em 1958, Theresa Lynn; e em 3 de abril de 1962, a caçula — uma menina ruiva chamada Brenda Ann Spencer. Até ali, tudo parecia normal. Mas por trás das portas, aquele cenário perfeito começava a desmontar silenciosamente.
Infância | Entre a Luz e a Escuridão

Brenda, 6 anos. Crédito: Medium
A infância de Brenda é onde a calma aparente deu lugar à construção silenciosa de uma bomba-relógio. Nos anos 60 e 70, no bairro operário de San Carlos, em San Diego, era comum cruzar com a pequena Brenda Ann Spencer: ruiva, sardenta, de óculos grossos por causa da forte miopia — traços que ela odiava, carregando desde cedo um profundo complexo com a própria aparência. Por fora, parecia uma criança feliz: cheia de energia, esportista, talentosa fotógrafa e apaixonada por animais. Típica menina americana. Mas bastava cruzar a porta de casa para tudo mudar.
1972 foi um divisor de águas brutal. Brenda tinha 10 anos quando os pais se divorciaram: Dorothy acusou Wallace de traição e de ter abandonado a família por um ano. Em decisão que marcaria sua vida para sempre, o juiz concedeu a guarda dos três irmãos ao pai — e a mãe simplesmente desapareceu. Tornou-se uma figura ausente; Brenda lembrava de ir até sua casa depois da escola e ficar horas sentada na calçada, sem saber se era bem-vinda.
Sem Dorothy, a vida com Wallace entrou em decadência. Mudaram-se para uma casa pequena, bem em frente à Escola Primária Grover Cleveland. O pai afundou no alcoolismo, amargou-se, e a família caiu na quase-pobreza. Chegaram a dormir os dois num único colchão de solteiro na sala. Foi ali, entre garrafas espalhadas por todos os cantos, que a infância de Brenda foi roubada. Anos depois ela revelaria: nas noites em que o pai chegava bêbado, o carinho dava espaço a espancamentos e abusos sexuais. Num misto de violência e estranho controle, Wallace alternava os maus-tratos com gestos de generosidade: dava-lhe animais de estimação e, sabendo do interesse da filha por armas, presenteou-a com uma espingarda de ar comprimido. Levou-a para o deserto e as colinas para ensiná-la a atirar — e descobriu que ela tinha um talento assustador. Brenda quase nunca errava. Caçava lagartos e esquilos com precisão cirúrgica. Seu sonho mudou: queria ser atiradora profissional. A infância ficou para trás. Ali, em silêncio, estava sendo forjada alguém que faria algo impensável.
A Adolescência e os Sinais Ignorados

Brenda, 12 anos. Credito:amostwantedpodcast.
Brenda entrou na adolescência irreconhecível. Aos 10 anos, para suportar o inferno de casa, encontrou uma fuga mortal: a heroína. Uma criança viciada numa das drogas mais devastadoras do mundo. E não parou ali: maconha, LSD e pílulas passaram a ser seu cotidiano, assim como o álcool — sempre disponível nas garrafas que o pai deixava espalhadas. Enquanto isso, Dorothy vivia em negação total. Em entrevistas, chegou a descrever a filha como:
“sempre feliz, bem-comportada, sem problemas”.
Era uma realidade paralela. Na verdade, a escola era onde Brenda pedia socorro à sua maneira: faltava às aulas, o comportamento tornou-se tão instável que foi transferida para uma instituição voltada a jovens em dificuldade. Os professores alertaram os pais:
“Sua filha tem tendências suicidas, precisa de ajuda.”
A reação de Wallace e Dorothy? Indiferença. Simplesmente deram de ombros. Negligenciada, Brenda passou a usar o choque para ser notada. Gabava-se de estar chapada em sala de aula, vibrava ao ver policiais serem baleados na TV e declarava abertamente que queria matar policiais. As pessoas andavam com ela por medo, não por amizade — uma colega lembrava que ela “só falava em matar coisas”. Fora da escola, a crueldade explodiu: maltratava animais, ateava fogo em cães e gatos, atirava em passarinhos. Hoje se sabe que isso é sinal clássico de alerta para comportamento violento — mas na época, foi completamente ignorado.
VerÃO de 1978
Nas férias de verão de 1978, Brenda deu o aviso final. Com sua espingarda de ar comprimido, atirava nas janelas da Escola Grover Cleveland — bem em frente à sua casa — e abatia aves que caíam mortas nas calçadas. Foi detida. Em sala de aula, perguntava de repente aos colegas:
“Como deve ser a sensação de atirar em pessoas?”.
Seu oficial de condicional, assustado com a escalada e após diagnóstico de depressão severa, foi categórico com Wallace:
“Brenda é um perigo para si mesma e para os outros. Precisa ser internada imediatamente.”
Ele recusou. E no Natal daquele ano, ao invés do rádio que a filha pediu, presenteou-a com algo muito mais perigoso: um rifle Ruger calibre .22, com mira telescópica e 500 munições. Nas semanas seguintes, da janela de casa voltada para o pátio da escola, Brenda começou a praticar. O relógio estava correndo.
O Último Sinal: A Contagem Regressiva de 1979

Chegamos a janeiro de 1979. Brenda tinha 16 anos. Já não estudava mais na Escola Grover Cleveland — era uma escola primária — mas sua mente nunca saiu daquela rua. Da janela da casa na Lake Atlin Avenue, observava dia após dia as crianças chegarem à escola bem em frente ao seu portão.
Os irmãos mais velhos já haviam saído de casa. Wallace passava o dia inteiro trabalhando como técnico na Universidade Estadual de San Diego, voltando apenas à noite — quando o ambiente era tomado pelo alcoolismo. Brenda ficava horas completamente sozinha, sem supervisão, isolada com suas drogas e o silêncio pesado da casa. O rifle Ruger .22, o “presente” de Natal do pai, virou seu companheiro. Ela limpava a arma, testava o gatilho e, da janela, enquadrava perfeitamente o portão onde os alunos se aglomeravam todas as manhãs. Para ela, aquilo deixara de ser uma escola: era um estande de tiro privado. Na última semana de janeiro, com a casa vazia, a contagem regressiva começou. Ela chegou a avisar textualmente um colega:
“Vou fazer algo grande para aparecer na TV.”
Mas ninguém levou a sério — achavam que era apenas Brenda sendo “estranha”. O plano estava pronto. A munição, à disposição. O horror estava prestes a acontecer.
O Mundo Inocente da Grover Cleveland Elementary
Vamos cruzar a rua e sentir o contraste que antecedeu o horror. De um lado: a casa silenciosa e sombria de Brenda. Do outro, a Escola Primária Grover Cleveland — pulsante, viva, com cerca de 400 crianças de 5 a 11 anos começando o dia, rindo, carregando lancheiras, descobrindo o mundo. No coração daquele lugar estavam dois homens que eram a própria alma da escola. O diretor Burton Wragg, 53 anos: não era o diretor distante e sisudo — recebia cada aluno no portão todas as manhãs com um sorriso. Amava aquelas crianças. Ao lado dele, o zelador Michael Suchar, 56 anos: acolhedor, trabalhador, conhecido e querido por todos. Para os dois, aquela escola era a própria vida.
Naquela manhã, professores organizavam as salas. As crianças chegavam aos poucos — de ônibus, trazidas pelos pais — rindo, conversando, com casacos contra o vento fresco. O pátio se enchia. O portão estava aberto. Tudo parecia mais uma manhã comum. Ninguém ali — nem o Sr. Wragg, nem Michael, nem nenhuma daquelas 400 crianças — imaginava que, a menos de 50 metros de distância, uma janela escura se abria devagar do outro lado da rua. E que um cano de rifle estava apontado diretamente para eles.
Segunda-feira, 8h30 da Manhã – O Caos Começa

Crédito da imagem : Getty Images
29 de janeiro de 1979
Pouco depois das 8h20. O pátio da Grover Cleveland está vivo: crianças correndo, risadas, lancheiras batendo. O diretor Burton Wragg cumprimenta os alunos no portão. O zelador Michael Suchar vigia a movimentação. Faltam minutos para o sinal.
Do outro lado da rua, no 8505 da Lake Atlin, silêncio total. Wallace já saiu. Brenda está sozinha. Não se arruma para a escola. Pega o rifle Ruger .22, confere as 500 balas e vai até a janela. Abre uma fresta. A mira telescópica enquadra tudo perfeitamente. Ela não vê pessoas — vê alvos em movimento.

Alunos de 5 a 9 anos, sendo retirados às pressas. Credito: Daily Mail.
Às 8h30, o primeiro estalo. Parece uma bombinha. Até que uma criança cai. Depois outra. E mais outra. O pátio vira caos. O chão começa a manchar de vermelho. O diretor Wragg não hesita: corre para proteger os alunos com o próprio corpo. Um tiro no peito. Ele cai gravemente ferido diante das crianças que amava. Pânico absoluto. Crianças gritam, correm, se escondem. Michael Suchar vê o amigo caído. Corre para socorrê-lo. Um tiro certeiro. Ele cai sem vida ao lado do diretor. Os tiros continuam em rajadas implacáveis. O policial Robert Robb, 28 anos, que acorreu ao local, é baleado no pescoço. Uma menina de 9 anos leva tiro na barriga; um menino, no ombro. Mais de 30 disparos em poucos minutos. O pátio virou cenário de guerra. O inferno se abriu naquela rua tranquila de San Diego.
O Cerco e a Resposta que Chocou o Mundo

As crianças sendo retiradas da escola. Crédito: KFMB
O pânico que começou no pátio rapidamente tomou conta do quarteirão. Em minutos, o som das sirenes dominou o bairro de San Carlos. Polícia e ambulâncias fecharam a rua e arredores; os agentes chegaram de armas em punho, sem saber de onde vinham os disparos. A prioridade era retirar as crianças dali — os policiais usavam os próprios carros como escudos para proteger os pequenos que corriam chorando em desespero. A SWAT isolou a área e logo percebeu: os tiros vinham da casa dos Spencer, bem em frente ao portão da escola. A polícia cercou o local, evitando invadir para não causar mais mortes, e preparou-se para negociar.
Foi então que o jornalista Gus Stevens, do The San Diego Union-Tribune, decidiu ligar para o número da casa. Uma voz de menina atendeu — calma, tranquila, sem nenhum desespero. Identificando-se, ele perguntou o que estava acontecendo. Brenda respondeu com naturalidade:
“Sim, sou eu que estou atirando.”
Chocado, ele fez a pergunta que marcaria a história:
“Por que atirar em crianças?”
Ela deu uma leve risada e soltou a frase que gelou o mundo:
“Não gosto de segundas-feiras. Isso anima o meu dia.”
Conversava como se falasse do tempo:
ela disse que ver as crianças correndo era como “atirar em patinhos num lago”, e que os alunos pareciam “vacas pastando, fáceis de acertar, um rebanho”.
Brenda desligou sem dizer mais nada. À polícia Brenda disse que estava armada e atiraria se invadissem. Por sete longas horas, uma adolescente de 16 anos manteve toda a força policial em xeque. Enquanto isso, do outro lado da rua, o pátio se esvaziava — deixando para sempre as marcas de uma tragédia calculada e quase previsível.
A Rendição e o Rastro da Destruição

Casa de Brenda, na 8505 da Lake Atlin. Credito: Wikipédia
Naquele caos total, o tempo não parava e a tensão na Lake Atlin Avenue só subia. A SWAT sabia que não podia invadir de cara: Brenda estava numa posição perfeita, dava pra ver todo mundo que chegava. A estratégia foi esperar e negociar. Horas de conversa tensa ao telefone. Enquanto isso, a notícia espalhou rápido pelas rádios e TVs de San Diego. Pais desesperados se amontoavam nas barreiras da polícia, chorando, sem saber se os filhos estavam bem.
No meio disso tudo, a polícia ligou para Wallace Spencer, o pai de Brenda, no trabalho. Quando ele soube o que estava acontecendo, ele se mostrou aflito. Pegou o carro e correu pra lá, mas foi parado pela polícia. Ficou ali, parado na calçada, chocado, vendo a própria casa cercada por homens armados — tudo por ações da filha que ele mesmo tinha armado e negligenciado. Dentro da escola, parecia cena de filme de terror. O professor Daryl Priest lembrou depois de tentar manter dezenas de crianças de 6 anos quietinhas e deitadas embaixo das mesas, enquanto os tiros ecoavam do lado de fora.
“O medo nos olhos daquelas crianças é algo que nunca vou esquecer”,
disse um dos policiais que ajudou a tirar todo mundo de lá.
Depois de quase sete horas, Brenda finalmente sentiu fome e cansaço. Os negociadores da SWAT fizeram a proposta final: se ela saísse sem arma, ganharia um sanduíche do Burger King. Ela aceitou.
As 15:30
Às 15h30, a porta da frente da casa se abriu devagar. A atiradora que manteve uma rua inteira refém atravessa o jardim, algemada. Ela não sai gritando, não sai chorando. Brenda Spencer caminha calmamente em direção aos policiais, com as mãos para cima, vestindo uma calça jeans e uma jaqueta azul. A expressão em seu rosto era de uma indiferença assustadora, quase como se estivesse entediada com toda aquela movimentação. Ela é colocada no banco de trás da viatura.

Credito: LA Times.
Quando os policiais da SWAT finalmente cruzaram a porta daquela casa, o estômago de muitos deles virou. O cenário era de pura miséria humana. Além do cheiro forte de urina e álcool, o chão estava forrado de garrafas vazias de uísque e cerveja. E, bem ali, no meio da sala, estava o famoso colchão de solteiro que ela dividia com o pai, cercado por cartuchos de bala deflagrados. Perto da janela, o rifle Ruger .22 estava ao lado de centenas de munições que ela não chegou a usar. Brenda foi levada diretamente para o centro de detenção juvenil, mas a gravidade do que ela havia feito era tão absurda que a Justiça da Califórnia não iria tratá-la como uma criança por muito tempo.
As vítimas do ataque

Jornal na época. Credito: The Tribune.
A tragédia do massacre na escola Grover Cleveland deixou um saldo brutal de 2 mortos e 9 feridos (8 crianças e 1 policial).
Naquele dia 29 de janeiro de 1979, o pânico tomou conta da rua enquanto as ambulâncias corriam desesperadas para o Mercy Hospital and Medical Center, em San Diego, para onde a maioria das vítimas foi levada às pressas.
As Vítimas Fatais: Burton Wragg (53 anos): O diretor da escola. Ele não pensou duas vezes: ao ouvir os primeiros tiros, correu direto para o pátio para tentar puxar as crianças para um lugar seguro. Levou um tiro no peito e morreu ali mesmo, tentando proteger os alunos. Mike Suchar (56 anos): O zelador da escola. Viu o diretor caindo e correu para tentar socorrê-lo e afastar o resto dos garotos da linha de fogo. Também foi atingido no peito e morreu no pátio.
Os Feridos e as Sequelas: Entre os 8 alunos atingidos, a maioria tinha entre 6 e 9 anos. O caos foi absoluto porque Brenda estava atirando com uma espingarda .22 com luneta lá do outro lado da rua, do alto da janela da casa dela. Camiller Miller (9 anos): Levou um tiro nas costas. O projétil perfurou o pulmão e ficou alojado perto da espinha. Ele passou por cirurgias pesadas no Mercy Hospital, sobreviveu, mas carregou dores crônicas e complicações pulmonares pelo resto da vida. Christy Buell (9 anos): Foi atingida no abdômen e na nádega. Ficou em estado crítico na UTI do Mercy Hospital, passou por cirurgias para reconstrução abdominal e teve uma recuperação lenta e dolorosa, carregando cicatrizes físicas e psicológicas profundas. Robert Robb (9 anos): Atingido no tórax. A bala perfurou o pulmão, exigindo internação emergencial na UTI. Outras 5 crianças: Atingidas por fragmentos de bala e estilhaços enquanto tentavam se esconder atrás dos portões e muros. Sofreram lesões corporais de diferentes gravidades e traumas psicológicos graves — muitos desenvolveram estresse pós-traumático severo e pânico de frequentar ambientes escolares. Robert Vance (28 anos): Um policial de San Diego que esteve entre os primeiros a responder ao chamado. Ao tentar proteger um grupo de crianças caídas no pátio, foi atingido no pescoço. O tiro por pouco não cortou a artéria carótida, deixando-o internado em estado grave.
A repercussão
A mídia dos anos 70 simplesmente surtou quando a Brenda Ann Spencer atacou a escola. Imagina a cena: 1979, televisão ao vivo em cores ainda se consolidando como a grande vitrine do horror humano, e os jornais sem saber direito como tratar uma garota de 16 anos que resolveu assassinar crianças por puro tédio. Para as rádios e para a TV, o choque não foi só o ataque em si, mas a frieza absurda nas declarações. Lembra quando um repórter ligou para a casa dela no meio do cerco policial, achando que estava ligando para uma testemunha, e a Brenda, sem tremer a voz, disse a frase que virou manchete no mundo todo:
“Eu não gosto de segundas-feiras. Isso anima o dia”.
Pois é. A imprensa pegou essa fala e martelou até não poder mais. Nas capas dos jornais o tom oscilava entre o desespero e uma fixação quase sádica pelo monstro adolescente. Os telejornais vendiam a imagem de uma adolescente ruiva, de óculos grandes, com cara de quem não matava uma mosca, mas que na prática era uma sociopata. A comoção virou uma mistura pesada de pânico moral e sensacionalismo puro: os apresentadores se perguntavam onde estavam os pais, o que a música rock ou as drogas estavam fazendo com a juventude, enquanto as câmeras focavam na janela do quarto de onde ela atirou. A imprensa não tratou o caso só como crime, mas como um espetáculo grotesco de uma garota que atirou em inocentes só
“para deixar o dia mais divertido”.
Não se falava em outra coisa! De psicopata a filha negligenciada, as opiniões se dividiram nos lares durante as refeições. A especulação de que poderiam surgir mais adolescentes assassinos em massa virou uma verdadeira paranóia. E eles não estavam errados: hoje sabemos que os ataques em massa em escolas nos Estados Unidos cresceram em número — e foram tenebrosos. E claro, ocorrem em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.
O Interrogatório
Assim que as algemas foram fechadas nos pulsos de Brenda, a fachada de garota durona começou a dar lugar a algo ainda mais bizarro durante o interrogatório. Diante dos detetives, ela parecia transitar entre a indiferença e a pura provocação. Cara de tanto faz sabe?
Ela estava sob o efeito de drogas ou álcool durante o ataque? Os exames médicos realizados logo após a prisão foram categóricos: não.
Brenda estava completamente sóbria. Sabia exatamente o que estava fazendo a cada vez que puxava o gatilho. Nos primeiros depoimentos, quando perguntada sobre o motivo do ataque, ela simplesmente deu de ombros e repetiu a história de que odiava segundas-feiras. Mas, depois, começou a soltar frases que revelavam o tamanho da sua distorção da realidade:
“Eu fiz isso porque ninguém me ouvia. Agora todo mundo sabe quem eu sou.”
Ministério Público do Condado de San Diego

Crédito da imagem: San Diego News
A promotora afirmou em comunicado que a Comissão Estadual de Liberdade Condicional ouviu depoimentos de promotores, bem como declarações de impacto de três vítimas, sobre os motivos pelos quais Spencer não deveria ser libertado.
“O choque causado por esse crime descarado reverberou por toda a comunidade de San Diego na época e continua a ocupar um lugar infame na história dos tiroteios em massa em nossa nação”,
disse a promotora do condado de San Diego, Summer Stephan, em um comunicado.
“Embora existam novas leis que podem potencialmente acelerar a libertação de indivíduos condenados quando menores de idade, bem como de presos com mais de 50 anos, nossa posição é que a totalidade das circunstâncias horríveis deste crime e deste caso não justifica a libertação, e ficamos satisfeitos que a Comissão de Liberdade Condicional tenha concordado com nossa posição.”
A gravidade do crime era tão brutal que a promotoria da Califórnia tomou uma decisão rápida: Brenda não seria julgada como uma menor de idade. Aos 16 anos, ela responderia como adulta por dois assassinatos em primeiro grau e nove acusações de assalto com arma mortal.
E a família nessa história toda?
Se você acha que o pai ou a mãe correram para defendê-la, a realidade foi um choque de abandono. A mãe, Dorothy, que já vivia afastada, praticamente desapareceu do mapa, querendo distância do monstro que a mídia pintava. E o pai, Wallace? O papel dele conseguiu ficar ainda mais sombrio. Wallace não tinha dinheiro para advogados caros, então Brenda recebeu a ajuda de defensores públicos. Durante as audiências preliminares, Wallace aparecia no tribunal com uma expressão vazia. Ele não chorava pela filha, nem pelas vítimas. A relação deles, que já era doentia dentro de casa, ficou exposta para todo mundo ver. Anos mais tarde, a própria Brenda revelou em audiências de condicional que os abusos do pai continuaram até o último minuto em que esteve livre — e que ele chegou a dar o rifle de presente esperando que ela se matasse com ele.
Sentença
Ao perceber que não havia escapatória — e buscando evitar uma pena de prisão perpétua sem direito a liberdade condicional, ou até mesmo a pena de morte que era cogitada — a defesa de Brenda firmou um acordo. Em 4 de abril de 1980, ela se declarou culpada de todas as acusações. Não houve julgamento com júri. Apesar de ter apenas 16 anos, foi processada como adulta; inicialmente, a defesa chegou a avaliar a possibilidade de uma alegação de insanidade, mas acabou optando pelo acordo e pela confissão formal.
A sentença veio rápida: 25 anos à prisão perpétua.
Brenda saiu do tribunal direto para a Instituição de Mulheres da Califórnia, em Corona. Ela achou que tinha ficado famosa e que seria a dona da história. Mas ela estava prestes a descobrir que as grades da prisão cobram um preço muito alto pelo esquecimento.
Os Spencer: A Família Depois do Crime
Se a vida dentro daquela casa já era um inferno antes dos tiros, o pós-crime foi ainda mais caótico e sombrio para a família. Wallace, o genitor virou figura marcada na mídia, perdeu o emprego na universidade e a casa da Lake Atlin Avenue — que virou ponto turístico macabro — foi vendida.
A nova e bizarra dinâmica de Wallace
Enquanto Brenda aguardava sentença no centro juvenil, conheceu Sheila Marie Henderson, 17 anos, fugitiva do Arizona. Após ser liberada, Sheila não quis ficar no albergue e procurou abrigo justamente na casa de Wallace, que vivia sozinho. A garota era tão parecida com Brenda que, no tribunal, confundiram-na com a própria filha dele! Wallace e Sheila se relacionam, e logo ela engravida. A condicional deu um ultimato: voltar para a cadeia ou casar com ele. Em 26 de março de 1980, em Yuma, no Arizona, eles se casaram. Logo após o parto, Sheila fugiu, deixou a bebê e se divorciou. Wallace criou a menina sozinho; em 2006, orgulhava-se de que ela cursava sociologia. Em fevereiro de 2016, Wallace faleceu — pondo fim à história do homem que deu o rifle à filha e construiu essa família absurda.
Dorothy, a genitora: como se a filha nunca tivesse existido
A “mãe” , que já vivia distante, cortou laços de vez. Mudou-se, trocou de nome e apagou-se da história. Nunca deu entrevista, nunca visitou Brenda na prisão. A vergonha do sobrenome Spencer foi maior que tudo.
Os irmãos: desapareceram para sobreviver
Scott e Theresa foram as vítimas colaterais. Como construir uma vida sabendo que a irmã é a garota que chocou o país atirando em crianças? Mudaram de cidade, adotaram nomes diferentes e viveram escondidos. Simplesmente evaporaram do mapa.
Enfim, a família de Brenda era assim: distante, negligente, ausente, fria. Brenda virou uma “presa esquecida”. Sem família ou amigos, o único contato dela com o exterior passou a ser com advogados do Estado.
Vida na prisão
Dentro da Instituição de Mulheres da Califórnia, em Corona, Brenda teve um comportamento que os relatórios prisionais dividem em duas fases. Nos primeiros anos, ela era problemática, fria e demonstrava traços de comportamento autodestrutivo. Com o tempo, ela entendeu que precisava “jogar o jogo” da prisão se quisesse ter alguma chance de liberdade. Ela começou a trabalhar em serviços internos na prisão, passando anos na área de zeladoria e, mais tarde, atuando no conserto de equipamentos eletrônicos dentro do presídio. Brenda também buscou os estudos na tentativa de limpar sua barra com a banca de condicional: fez cursos técnicos e chegou a receber tratamento psiquiátrico contínuo para epilepsia e depressão. Quem a via trabalhando de cabeça baixa mal conseguia enxergar a adolescente feroz de 1979.
Teatro das Audiências de Condicional
A partir de 1993, Brenda atingiu o tempo mínimo de pena e começou a passar pelas audiências de liberdade condicional. Foi aí que ela começou a dar entrevistas e depoimentos bizarros, mudando sua versão do crime a cada nova tentativa para tentar comover os juízes:
1993 (A primeira tentativa): Brenda chocou a banca ao sugerir que não se lembrava direito dos tiros porque estava sob o efeito de um coquetel de drogas e álcool (o que os laudos médicos da noite da prisão já tinham desmentido categoricamente). O pedido foi negado.
2001 (A teoria da conspiração): Nessa audiência, Brenda veio com uma história completamente nova. Ela alegou que o pai abusava sexualmente dela e que o tiroteio, na verdade, foi uma tentativa de “suicídio por policial” (provocar os guardas para que atirassem nela). Para piorar, ela alegou que a promotoria e a polícia tinham forjado as provas contra ela. Novamente, a condicional foi negada por falta de arrependimento real.
2005 (O “testemunho” de proteção): Ela tentou focar em seu bom comportamento na prisão e no fato de ter se tornado uma detenta “modelo” que ajudava outras presas. Mas os juízes mantiveram a decisão: a frieza do crime original pesava demais.
2016 e 2019: Nessas audiências, os advogados tentaram usar o argumento de que ela cometeu o crime quando era apenas uma adolescente com o cérebro em desenvolvimento e que já estava idosa, sem oferecer riscos. Mais uma vez, a justiça negou, apontando que ela continuava a manipular os fatos e a culpar os outros pelas suas próprias ações.
2021/2022 (As tentativas mais recentes): Brenda tentou novamente alegar que sofria de trauma severo devido aos abusos do pai (que faleceu em 2016) para justificar sua mente distorcida na época. A banca de comissários foi irredutível: ela foi considerada inadequada para o convívio em sociedade. Sua próxima oportunidade de apelo foi empurrada para frente, garantindo mais anos de cela.
2025 – A Cartada do Autismo e o Confronto com o Passado
Em 21 de fevereiro de 2025, Brenda passou por uma de suas audiências de liberdade condicional mais tensas, realizada por videoconferência. Diante da banca de comissários, a defesa de Brenda trouxe um argumento inédito na tentativa de conseguir sua liberação: um diagnóstico recente de que ela estaria dentro do espectro autista, usando isso para tentar justificar sua falta de discernimento e dificuldades de desenvolvimento na época do crime. Durante o depoimento, Brenda — que estava com 63 anos na data da audiência — manteve respostas curtas e frias. Ela insistiu na antiga tese de que sofria abusos por parte do pai e deu uma declaração que chocou os presentes: afirmou que atirou nas crianças “porque sabia que isso faria a polícia chegar mais rápido”, reforçando a teoria de que sua intenção original era provocar um “suicídio por policial”. Para tentar se esquivar do peso de suas próprias palavras, ela alegou aos juízes que não se lembrava de ter dito a famosa frase “Eu não gosto de segundas-feiras” para o jornalista que ligou para sua casa no dia do massacre.O momento mais emocionante da audiência foi o confronto com o passado.
sobreviventes
Os sobreviventes, hoje já adultos, participaram de forma virtual para compartilhar marcas que o tempo jamais conseguiu apagar. Cam Miller, que foi baleado no peito quando tinha apenas 9 anos, olhou firme para a tela e falou com toda a firmeza de quem carrega aquela dor desde a infância:
“Ela decidiu caçar humanos porque estava entediada.”
Os sobreviventes em suas palavras o que foi ouvido, foram um pedido sincero e desesperado aos juízes: que ela nunca fosse livre para fazer isso de novo. A comissão levou apenas 20 minutos para decidir. O pedido de liberdade condicional foi negado de forma absoluta. Ficou comprovado que Brenda Spencer continua sem demonstrar o menor sinal de remorso, que distorce os fatos para se justificar e que segue sendo um risco real e perigoso para todos. Com essa decisão, sua próxima chance de revisão só virá em 2028 — mais dois anos de justiça sendo feita.
“fama” Pop e o Fim da Linha
Enquanto Brenda envelhecia na prisão, seu crime deixava uma marca indelével na cultura pop. Pouco tempo após o ataque, o cantor Bob Geldof, da banda The Boomtown Rats, leu a chocante declaração dela no jornal e escreveu a música “I Don’t Like Mondays” (Eu não gosto de segundas-feiras). A canção estourou nas paradas de sucesso do mundo todo com um ritmo pop que contrastava terrivelmente com a história real de sangue e loucura que a inspirou. Mas em San Diego, as rádios evitam tocar a música. Hoje, Brenda está com 64 anos. Aquela adolescente de cabelos longos e óculos grandes deu lugar a uma vida toda passada em uma prisão. A justiça americana não esquece o pátio ensanguentado da Grover Cleveland Elementary. Brenda Spencer conseguiu a fama que queria em uma segunda-feira de 1979, mas o preço ė passar o resto de todos os seus dias trancada no mais absoluto e merecido esquecimento.
“Brenda Spencer não foi a primeira atiradora em escolas, mas o seu crime foi o divisor de águas. Ela inaugurou a era moderna dos massacres escolares coreografados para a mídia, onde a busca pela notoriedade supera qualquer motivo real.”
— Peter Langman, psicólogo clínico e um dos maiores especialistas americanos em tiroteios escolares, autor do livro School Shooters.
Fontes Consultadas
Fontes da Imprensa Internacional: ✔️San Diego Union-Tribune. Cobertura histórica do jornal local de San Diego sobre o ataque na escola Grover Cleveland Elementary, a negociação e os desdobramentos na comunidade.✔️Busca recomendada: Brenda Spencer Grover Cleveland Elementary San Diego. ✔️The New York Times. Girl, 16, Charged in San Diego School Shooting — ✔️Notícia original de janeiro de 1979 sobre o ataque e a prisão.✔️BBC News ✔️
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