
Quem era Cindy
Cynthia (Cindy) Elizabeth Hack nasceu na Colúmbia Britânica, em 12 de junho de 1944. Filha de Matilda “Tilley”, dona de casa, e Otto Hack, professor de inglês e ex-coronel da Força Aérea Real Canadense. Sua mãe era dona de casa. Ela cresceu entre seis irmãos — três mais velhos e duas mais novas. Por causa do trabalho do pai na Força Aérea, passou parte da adolescência em Ottawa, onde fez o ensino médio. Em seus diários, Cindy contou que a infância foi bastante dura, marcada pela rigidez e pelos castigos físicos impostos pelo pai. Ela foi bem educada, bem criada, se formou em enfermagem na universidade e trabalhou durante toda sua vida na profissão. Cindy, embora tivesse tido uma criação dura por parte do pai, ela era desde criança uma menina muito acolhedora. Ela gostava muito de cuidar das pessoas, por isso escolheu enfermagem.

Riverview Hospital – Cindy James. Crédito das imagens: Médium e Sketchfab.
Depois de terminar o ensino médio, Cindy decidiu ¹ enfermagem em Vancouver. Em 1962 começa o curso e a formatura aconteceu em 1966. Cindy se formou em enfermagem e trabalhou como enfermeira pediátrica no Riverview Vancouver General Hospital. Depois, passou cerca de 12 anos na Blenheim House, trabalhando com crianças com distúrbios comportamentais, onde era muito elogiada pelo profissionalismo e pela dedicação. Mais tarde, voltou a trabalhar como enfermeira no Richmond General Hospital. Há relatos na página Médium, onde ex pacientes de Cindy, dizem que ela era maravilhosa com as crianças
Roy
Cindy e o marido Roy. Créditos das imagens: Médium e Reddit.
Início do namoro em: 1965 . • Casaram-se em 1966 • A separação ocorre em: 1982 .
Foi na faculdade que ela conheceu Roy Makepeace, um psiquiatra sul-africano, 18 anos mais velho, que era professor assistente na universidade. Eles se apaixonaram e se casaram em 9 de dezembro de 1966, no mesmo ano em que Cindy se formou em enfermagem. Os pais dela não apoiavam o casamento, principalmente o pai, que achava a diferença de idade absurda e acreditava que Roy tinha se aproveitado da ingenuidade da filha. E sobre o casamento, as pessoas próximas contaram que o relacionamento era conturbado e frio. Cindy chegou a confessar às amigas que era agredida por Roy. Roy dizia que não era bem assim. Segundo ele, durante todo o tempo em que estiveram juntos, ele tinha “apenas” dado dois tapas nela. Não vou nem falar o que penso sobre esse “apenas”. Depois de 16 anos, o casamento chegou ao fim. Cindy saiu de casa e foi morar sozinha, enquanto Roy continuou na antiga residência do casal. Só que Roy não aceitava o fim e insistia bastante por uma segunda chance. Ela esperava que, com o tempo, os dois pudessem se reaproximar e recuperar a paixão e a confiança que tinham perdido.
Casa nova, vida nova?

Cindy no jardim de sua casa — Crédito: JunkieCrime
Cindy está, pela primeira vez na vida, morando sozinha. Alguns meses após se separar de Roy, a vida dela, até aqui, era comum: trabalho, amigos, jantares com o ex, visitas à família. Ela amava cuidar do jardim nos fins de semana e ler. Cindy não era daquelas pessoas de ter mil amigos. Ela tinha um grupo de amigos de longa data e, claro, socializava com eles.
A Perseguição
No final de setembro, Cindy contou a amigos e familiares que suspeitava que um intruso estivesse rondando sua casa e que telefonemas em todos os horários estavam acontecendo. Ela disse que atendia e só ouvia uma respiração pesada do outro lado. Perguntava quem era, mas não tinha resposta. Isso durou semanas. Às vezes, era só o silêncio. O telefone tocava e era sempre igual, só a respiração e desligavam. Com o tempo, as ligações pioraram abruptamente. De poucas por dia, passaram a acontecer a cada hora. A pessoa começou a sussurrar o nome dela. Só que era uma voz desconhecida, chamando:
“Cindy, Cindy…”

Cindy James. Crédito da imagem: Médium. Restauração digital por a&m.
Ainda estamos em setembro/82, e Cindy ainda não fez B.O. E Cindy não reconhece aquela voz. Ela não sabe quem está fazendo aquilo e continua sem conseguir identificar quem está por trás das ligações. Ela perguntava quem era, mas a pessoa nunca respondia. Apenas sussurrava o nome dela, desligava e, pouco depois, voltava a ligar para fazer a mesma coisa:
“Sua vagabunda. Vou te pegar.”
Ele passou a falar coisas de cunho sexual pesado. Ela não tinha a menor ideia de quem estava por trás daquilo. Na real, no início Cindy não suspeitou de ninguém.
O primeiro B.O de dezenas que ela faria
Quando começou a investigação, os investigadores pediram a Cindy que registrasse todas as ligações de assédio. Mal tinham saído e uma nova ameaça chegou em um terrível telefonema:
“Então você acha que chamar a polícia vai te manter segura? Espere só. Estou com o zíper aberto, estou falando com meu…”
O medo crescia. O que antes eram apenas ligações agora invadia sua casa, seu refúgio. Sussurros transformaram-se em terror constante — e não havia fim. Cindy relatou tudo à polícia: as ligações, o assédio, os telefonemas obscenos cada vez mais frequentes. Mas ouviu que nada podiam fazer. Sem suspeitos, sem pistas, sem provas, sem testemunhas —ela morava sozinha. Eram ligações assustadoras:
“Vou te pegar uma noite dessas, Cindy.”
E ela sentia que era como se aquela pessoa estivesse a observando o tempo todo. Certa noite, Cindy ouviu barulhos na porta dos fundos, a que saía da cozinha para os fundos — algo que viraria constante na escuridão das madrugadas. Ao olhar pela pequena janela de vidro da cozinha, ela viu a silhueta de uma pessoa no quintal. A pessoa usava aqueles blusoēs com capuz de moletom, não dava pra ver quem era. Nem se era homem ou mulher. Nesse ponto, Cindy não costumava deixar as lâmpadas de fora acesas. Mas agora isso vai mudar, porque ela ligou a luz de fora e faria isso todos os dias. O invasor percebeu que tinha sido visto e fugiu. Isso aconteceria várias e várias vezes. Cindy voltou à delegacia e contou o ocorrido.
A resposta? Como ela não reconheceu o indivíduo, nada podia ser feito.
Dois ou três dias depois, uma pedra estilhaçou a janela de vidro da casa. Sem testemunhas, a polícia novamente cruzou os braços.

Cindy James — Crédito da imagem: El Men.
Uma semana após a pedrada, Cindy voltou do trabalho, preparou algo para comer; enquanto a refeição aquecia, ela tomou banho e tudo em casa parecia em paz. Mas ao entrar no quarto para dormir e levantar o edredom, veio o choque: a fronha, o travesseiro estavam cortados em vários pedaços, picotados como se alguém tivesse entrado, usado uma tesoura bem ali do lado da cama dela e partido sem fazer barulho. Na minha mente pensei na hora que li esse trecho que a pessoa estava ali o tempo todo desde que ela chegou. O terror de saber que um estranho esteve dentro da sua casa é indiscutivelmente assustador. Cindy chamou a polícia, de novo. O Policial McBride chegou a casa dela , vistoriou os armários, olhou embaixo da cama e checou o quintal. Ele anotava todo o relato num bloco. Quando o policial perguntou se ela desconfiava de alguém, talvez de seu ex-marido, Cindy descartou completamente o ex-marido: disse que Roy jamais faria algo assim. O policial levantou a hipótese de que talvez fosse para forçá-la a voltar para ele. Mas ela disse que não acreditava.
O Policial McBride, se envolve com Cindy

Pat McBride (Policial). Crédito da imagem: expobermuda.com
O envolvimento entre os dois começou em outubro de 1982, logo após McBride ser designado como o policial encarregado de investigar as primeiras denúncias de perseguição e assédio feitas por Cindy. Ele estava recém separado da esposa nesse ponto. Saindo das regras, ele se ofereceu para dormir na casa dela por uns dias para agir como seu protetor. Após 14 dias morando juntos, eles assumiram o namoro. No entanto, a presença de um policial na residência não impediu os ataques e bilhetes ameaçadores do perseguidor. Em meados de novembro, McBride afirmou que ele próprio recebeu um telefonema misterioso em casa enquanto Cindy estava presente. A pessoa que ligou não disse nenhuma palavra, apenas respirava fundo e alto. Inicialmente, McBride suspeitou que a ligação pudesse ter sido feita de um terminal de aeroporto, pois conseguia ouvir a voz de uma mulher ao fundo através de um sistema de som, embora essa percepção tenha sido posteriormente descartada. No início, Roy, o ex-marido de Cindy, não gostou nada desse namoro. Mas, na verdade, eles viraram amigos e frequentemente Roy ia à casa de Cindy para que os três discutissem sobre o perseguidor. Em 28 de novembro, McBride notou que as linhas telefônicas externas da casa haviam sido cortadas em cinco lugares diferentes. Ele mesmo trocou todas as fechaduras por modelos novos e reforçados. Em 01 de dezembro, Pat se mudou da casa de Cindy, mas o namoro ainda durou cerca de um ano.
Os ataques viraram uma rotina massacrante. Eram dezenas de ocorrências na polícia, invasões e ameaças, mas os investigadores repetiam a mesma frase: não há provas, não há testemunhas. A polícia finalmente resolveu instalar um equipamento para tentar rastrear as chamadas telefônicas. Mas quem ligava sabia exatamente o tempo que a perícia levava para rastrear e desligava a linha segundos antes. Em uma das visitas técnicas, o telefone tocou e o próprio policial atendeu. Ele ouviu a voz sussurrando o nome de Cindy antes de a ligação cair. A pessoa sabia exatamente o que estava fazendo.
Para as autoridades, eram apenas delírios — eles não acreditavam em Cindy
Em outra noite, no dia 15 de outubro de 1982, Cindy ouviu passos dando voltas no quintal. Ela ligou em pânico para a emergência e relatou que tinha alguém rodeando sua casa. Quando as viaturas chegaram, não viram ninguém. Sem pegadas, sem rastros, sem nada. Foi ali que a postura das autoridades começou a mudar. Os policiais começaram a ficar chateados e a olhar para Cindy com desconfiança, tratando-a como uma mulher paranoica, desequilibrada e com mania de perseguição, como se tudo fosse invenção da mente dela. A própria Cindy fez declarações contraditórias sobre o ex, dizendo às autoridades que não achava que ele fosse capaz de atormentá-la, mas também revelou a amigos e colegas de trabalho que ele era violentamente abusivo durante o casamento. Por isso achavam que ela inventava ou omitia algo. Mas e o policial que atendeu a ligação e ouviu os sussurros? Outro fato curioso foi relatado por policiais que vigiavam a casa de Cindy. Segundo eles, ela saía de madrugada para passear com Heidy, sua cachorrinha, o que consideravam estranho para alguém que afirmava estar sendo perseguida. No podcast Criminology, em episódio publicado em 28 de setembro de 2019, os apresentadores afirmam que esse hábito já existia havia bastante tempo e continuou mesmo após o início das perseguições. Fica o questionamento.
OS BILHETES
Crédito das imagens: Reditt
Numa das noites em que ouviu barulho do lado de fora, ela criou coragem, abriu a porta e encontrou um bilhete preso com uma faca: frases ameaçadoras montadas com letras recortadas de jornais e revistas, exatamente como em bilhetes de sequestro. Sabe aqueles bilhetes que a gente via muito antigamente em filmes, pedindo resgate. Era exatamente um bilhete assim. Na semana do Natal, Cindy encontrou, do lado de fora de sua casa, duas imagens com mensagens ameaçadoras. Em uma delas, estava escrito “Feliz Natal”, acompanhado pela fotografia de uma mulher com a garganta cortada e manchada por um líquido vermelho. Os bilhetes eram acompanhados por palavras soltas como sangue, decapitar, morrer, capturar e morto.
As ameaças diretas incluíam frases como “Run, rabbit, run” (Corra, coelha, corra), “I’ll show you how fucking good I am” (Vou lhe mostrar do que sou capaz, porra — demonstrando um tom agressivo e vulgar), “Soon, bang, bang, you’re dead” (Em breve, bang, bang, você estará morta) e “Now you must die, C—” (Agora você tem que morrer, C—, onde o trecho final parece corresponder ao início de um insulto extremamente vulgar em inglês). Outras mensagens curtas diziam “You’re next” (Você é a próxima), “Time is short” (O tempo está acabando), “Soon” / “Soon, Cindy” (Em breve / Em breve, Cindy), “I see you” (Eu vejo você) e novamente “Merry Christmas” (Feliz Natal).Além das frases, os bilhetes traziam palavras e expressões isoladas como blood (sangue), behead (decapitar), die / dead (morrer / morto), knife (faca), catch (pegar, capturar ou alcançar), pray for (reze por…), last (último ou durar), of (de), here come… (aqui vem…) e ride behind (cavalgue ou ande atrás).
Segundo o jornalista Neal Hall, não havia impressões digitais nem DNA nos bilhetes ou nos pontos em que a linha telefônica foi cortada. Também encontrei relatos de que, no episódio da faca atravessada na mão de Cindy, a polícia não coletou impressões digitais, nem amostras de sangue — da faca, do bilhete ou da própria vítima.
Terror e Vandalismo em casa

Supostamente essa era a residencia de Cindy James, em Vancouver. Crédito da imagem: Jeff Benna.
Logo depois, o início dos bilhetes, a perseguição escalou para a escuridão real. As lâmpadas da varanda e dos fundos da casa passaram a ser quebradas repetidas vezes, durante várias noites. Ao abrir a porta, Cindy se deparava com a escuridão total e o chão coberto de cacos de vidro, bem próximo à entrada. Certas ocasiões após quebrarem a lâmpada, o telefone tocava minutos depois. Algumas ligações eram algo como um sussurro que a marcou:
“Uma noite eu te pego, Cindy”
E, novamente, Cindy chamou a polícia. E adivinha? A polícia continuava encarando tudo aquilo como delírio de uma mulher louca. Dessa vez, o ex-marido foi chamado para prestar depoimento. Ele foi descartado como suspeito, por enquanto (não sabemos por qual razão) e fez questão de afirmar que Cindy era saudável e jamais inventaria uma loucura daquelas. Roy comprou passagens para ele e Cindy viajarem para que ela visitasse o irmão na Indonésia. Várias semanas depois de retornar da viagem, Cindy encontrou outro bilhete em 22 de agosto/83, que dizia:
“Bem-vinda de volta — morte, sangue, ódio.”
INQUILINOS
Em certa ocasião, o clima de apreensão se intensificou quando dois inquilinos que moravam no porão da residência de Cindy procuraram a polícia. Eles relataram ao detetive Ozzie Kaban, ter ouvido barulhos inexplicáveis e perturbadores vindos do andar superior — a parte principal da casa —, logo após a enfermeira ter saído para o trabalho. Eles disseram que assim que Cindy saiu de casa, os barulhos começaram. Eram barulhos de passos por toda a casa, e barulhos de gavetas abrindo e fechando. Portas abrindo…
A VIZINHA
Em outra ocasião, uma vizinha também presenciou coisas estranhas. Ela revelou ao detetive McBride ter observado um homem desconhecido rondando a propriedade em pelo menos três ocasiões distintas. Em um desses episódios, a testemunha o viu abrindo e cruzando com familiaridade o portão do jardim da frente. Confrontada sobre a identidade do suspeito, o detetive mostrou a vizinha uma foto de Roy, a vizinha foi categórica: aquele homem não tinha qualquer semelhança física com Roy Makepeace, o ex-marido de Cindy.
Na primeira vez, Cindy mudou-se para uma casa em West Vancouver em 1º de fevereiro de 1983. Menos de uma semana depois, recebeu uma carta ameaçadora que dizia:
“Corra, coelha, corra, vou te mostrar como sou bom pra caralho. Logo, bang, bang, você está morta.”
Após uma série de chamadas obscenas, ela mudou-se novamente em abril de 1983. Em seu diário pessoal, acusou Makepeace de destruir o jardim do seu quintal.Cindy continuou a receber inúmeras ligações telefônicas em casa e no trabalho. Algumas delas foram atendidas por seus colegas na Blenheim House, que relataram às autoridades que a pessoa do outro lado da linha permanecia em silêncio. Aqui, ela já acreditava que era o ex.
MAS, para a polícia, essas declarações não levavam a lugar nenhum.
De 1982 a 1989:
Tudo que Cindy fez para tentar escapar
“As primeiras atitudes foram: quando o policial Pat trocou todas as fechaduras da casa, e Cindy mudou o número de telefone logo no início das ligações em Setembro de 82. Não adiantou.”
Ela mudou de rua, de bairro e de cidade e trocou de casa seis vezes. Não foi só trocar de rua. Ela saiu de Vancouver, foi para West Vancouver e depois para Richmond. Trocar de bairro, trocar de cidade… nada funcionou
Deixou de ser “Cindy James” e passou a usar o nome de solteira da mãe: Cynthia Hack. Ela queria desaparecer do mapa, mas não adiantou — as ameaças continuavam chegando para ela pelo nome novo
Na Blenheim House, onde trabalhava, ela pediu que a chamassem pelo nome novo. Então quando ligavam perguntando se Cindy James estava, respondiam que não tinha ninguém com esse nome la.
Ela mudou a cor do carro. Fez isso para não ser reconhecida na rua.
Em julho de 1983, foi para a Indonésia visitar o irmão Roger, que morava lá — e Roy Makepeace pagou a passagem. Ela esperava que, ao voltar para o Canadá, tudo tivesse acabado. Mas quando voltou, o pesadelo continuava à sua espera.
Ela contratou o detetive Ozzy Kaban para descobrir quem era o perseguidor. Ele acreditou nela, mas também não conseguiu encontrar ninguém.
Nota

É importante ressaltar que, nos anos 1980, as câmeras de segurança residenciais ainda não eram um recurso comum nas casas, como são hoje. Câmeras de vigilância já existiam e eram utilizadas em empresas e estabelecimentos comerciais. No entanto, os equipamentos disponíveis para uso residencial eram, em geral, volumosos, caros e exigiam instalações específicas, o que tornava seu uso pouco comum nas residências.
A invasão do medo

Ozzie Kaban, investigador particular.Crédito da imagem: Sala do Júri.
Lembra daquele episódio do travesseiro picotado na cama de Cindy? Ele não foi o único, nem um caso isolado. Muito pelo contrário. Aquilo foi o início.
A residência de Cindy também foi cenário de uma série de outros acontecimentos perturbadores. Pedras foram atiradas contra as janelas em diversas ocasiões — em uma dessas vezes, a mãe de Cindy estava presente e presenciou o momento em que o vidro se partiu, mas não conseguiu identificar quem havia arremessado. Os vidros foram estilhaçados repetidamente, e ela também relatou casos em que alguém havia adentrado a casa. RELEMBRANDO: Na mesma época, dois inquilinos que moravam no porão disseram ter ouvido ruídos no andar de cima depois que Cindy saiu para trabalhar. Uma vizinha também contou ter visto um homem estranho diante da casa em diferentes ocasiões.
Em 27 de janeiro de 1983, sua amiga e colega Agnes Woodcock encontrou Cindy inconsciente no quintal, com uma meia-calça de náilon apertada ao redor do pescoço. Ao acordar, ela relatou ter sido atacada por trás perto da garagem, levada para dentro onde um segundo homem a esperava, e os dois a estrangularam. Disse ainda que inseriram uma faca em sua vagina e a ameaçaram: matariam sua irmã Melanie se ela falasse. Os médicos não encontraram evidências concretas de agressão sexual, mas o detetive David Boywer-Smith permanece em dúvida sobre o que realmente aconteceu.

Retrato falado do agressor de Cindy, referente ao ataque de 30 de janeiro de 1984. Crédito: Wikipedia.
COZINHA: Em 30 de janeiro de 1984, o investigador particular Ozzie Kaban encontrou Cindy inconsciente dentro de casa, com uma faca atravessando a mão e um bilhete preso pela lâmina. Havia também sinais de sangue na cozinha. Mas acredite, os policiais não colheram nenhuma evidência.
“NOW YOU MUST DIE, CUNT.” Em português: “AGORA VOCÊ TEM QUE MORRER, SUA VADIA.”
Nota
Cunt: é um palavrão extremamente vulgar em inglês. Literalmente, refere-se à genitália feminina, mas, quando usado como insulto, pode equivaler a “vadia”, “desgraçada” ou a outras ofensas pesadas, conforme o contexto.
HEIDI era a cachorrinha da Cindy. Em junho daquele ano, Kaban voltou à residência após receber uma ligação de Cindy. Ele encontrou-a amedrontada no jardim e sua cachorrinha, Heidi, acuada no porão. Havia fotografias de conteúdo sexual explícito acompanhadas de uma bilhete:
“Happy Birthday”
Heidi apresentava sinais de ter sido fisicamente abusada, e uma bituca de cigarro de uma marca diferente daquela que Cindy costumava fumar foi encontrada no local. Pouco depois, Cindy contou que dois homens haviam aparecido à sua porta fingindo ser policiais. Segundo ela, os desconhecidos fugiram quando ela chamou Kaban pelo rádio comunicador. O investigador disse:
“Ela nunca teria feito isso se fosse a Cindy que eu conhecia.”
Em 9 de j ulho de 1984, sua mãe, Tilley, passou a noite na casa. Durante a madrugada, as duas ouviram ruídos e perceberam que uma janela próxima à varanda estava estilhaçada. A mãe estava presente e viu a janela quebrada, embora não tenha visto quem a quebrou. Em agosto de 1985, Cindy relatou três incêndios na residência. No último episódio, policiais e bombeiros compareceram ao local. Uma janela do banheiro do porão estava parcialmente aberta, mas não foram encontrados sinais claros de passagem de alguém pela poeira e pela fuligem. A possibilidade de que os incêndios tivessem sido provocados pela própria Cindy chegou a ser levantada, mas a autoria não foi estabelecida de maneira conclusiva.
Em abril de 1986, outro incêndio ocorreu no porão enquanto Agnes Woodcock e seu marido, Tom, dormiam na casa. O casal foi acordado por Cindy, que disse ter ouvido uma movimentação estranha. Os três encontraram o fogo, mas nenhum deles viu quem o iniciou. Os relatos de ocorrências na residência continuaram em 1987. Em agosto, o alarme disparou após uma janela dos fundos ser quebrada. Dias depois, Cindy relatou que as lâmpadas da varanda haviam sido afrouxadas. Em setembro, ela informou que alguém havia feito um buraco no vidro da porta do porão, aparentemente utilizando um cortador de vidro.Em fevereiro de 1988, já perto do fim dos acontecimentos que marcaram o caso, Cindy relatou que outra janela havia sido estilhaçada, apesar de estar protegida com fita isolante. Ao longo desses anos, a residência tornou-se um dos principais cenários dos episódios atribuídos ao perseguidor.
Cindy fez alguns testes de polígrafo após os ocorridos. O exame indicou que ela não estava mentindo — todos os envolvidos confirmaram esses resultados. Mas no relatório oficial, o policial responsável pelo simplesmente registrou: inconclusivo.
Um ano após o início do pesadelo, veio a primeira manhã doentia com os gatos — e esses episódios se repetiriam por sete longos anos. Cindy saiu de casa certa manhã e notou algo diferente: nenhuma janela quebrada, nenhuma lâmpada destruída. Por um instante, respirou aliviada. Mas ao atravessar o jardim em direção ao carro, deparou-se com o horror: três gatos estavam mortos no caminho que ela fazia todos os dias. Cada um estava estrangulado, com as patas amarradas para trás com uma corda. Perto deles, um bilhete dizia:
“VOCE Ė A PRÓXIMA”
Em outras ocasiões, encontrou mais um gato morto entre as portas dos fundos da casa, acompanhado de outra carta. Outro foi encontrado perto da garagem pela própria cadela Heidi — aparentemente atropelado, também com uma mensagem que nunca foi divulgada publicamente. Em um dos piores momentos, descobriu gatos pendurados por corda perto da garagem. A vizinha da frente, já havia dito a polícia que viu um homem entrando e saindo da casa por algumas vezes.
EPISÓDIO FORA DE CASA
Em 11 de dezembro, por volta das 18h, motoristas encontraram Cindy semiconsciente em uma vala a quase 10 km de sua casa, perto da Universidade da Colúmbia Britânica. Ela vestia botas de trabalho masculinas, usava apenas uma luva e tinha uma meia de náilon amarrada com força ao redor do pescoço. Sob o frio congelante, sofreu hipotermia grave e foi levada às pressas ao hospital, onde descobriram hematomas, cortes pelo corpo e indícios de injecção de tranquilizantes. Cindy afirmou não se lembrar de nada: sua última memória era ter saído para almoçar no trabalho e parado em uma farmácia. Depois disso, não se lembra de nada. O especialista em nós Robert Chisnall analisou cada meia de náilon usada para amarrar Cindy e concluiu: é extremamente improvável que ela mesma tenha conseguido dar aqueles nós em si própria.
“Essa mulher estava sob ataque vindo de qualquer direção — interna ou externa… Ela estava vivendo um verdadeiro pesadelo.”—
Anthony Marcus, um psicólogo que entrevistou Cindy em 1985.
+ Terror
Cindy contou ter sido atacada por volta das 20h30 no Parque Dunbar, enquanto passeava com sua cadela Heidi. Segundo o relato, um homem barbudo acompanhado de uma mulher a abordou em uma van verde. Perto da meia-noite, Cindy foi encontrada atordoada tentando entrar na casa de um vizinho, com uma meia de náilon cinza-escura amarrada ao pescoço. Sua cachorrinha vagava pelo parque.No hospital, os médicos constataram duas marcas de perfuração em seu braço direito. Enquanto ela era atendida, uma recepcionista informou ter recebido a ligação de um homem com sotaque questionando a segurança do local — áudio que ela mais tarde reconheceu com alta probabilidade como sendo a voz de Roy, o ex marido.
Os Relatos Oficiais dos Profissionais de Saúde Mental
1990 — Depoimentos no Inquérito Oficial
Durante o inquérito, vários profissionais prestaram depoimento com suas observações clínicas — nenhum diagnóstico final foi considerado definitivo:
Dr. Wesley Friesen (seu psiquiatra nos últimos anos) Observou sintomas consistentes com Transtorno de Personalidade Limítrofe, além de elementos de estresse pós-traumático. Ressaltou que Cindy relata um “ódio profundo” pelo pai e que havia fortes indícios de possível abuso na infância.
Dr. Anthony Marcus (psicólogo da RCMP, 1985) Hipótese de Transtorno de Identidade Dissociativo — mas não entrevistou Cindy sobre sua infância, portanto era especulação.
Dr. Paul Termansen Avaliou Cindy no inquérito; descreveu o que chamou de “personalidade histérica”.
Dr. Allan Connelly (desde 1983) Acreditava que o assédio era real, mas confirmou que Cindy também lutava com depressão, anorexia, ansiedade severa e ideação suicida.
✔️Importante: Nenhum desses profissionais chegou a um consenso ou estabeleceu um diagnóstico oficial definitivo. Cada médico tinha uma observação diferente, e essas opiniões permanecem como pontos de vista divergentes no caso — não como fatos comprovados.
Cindy Desaparece
Em 25 de maio de 1989, uma quinta-feira.Naquele dia, Cindy seguiu sua rotina normalmente. Por volta das 16h, elafoi ao trabalho no Richmond General Hospital buscar seu pagamento. Uma colega de trabalho conversou com ela e relatou que Cindy parecia estar de bom humor, normal. No início da noite, ela foi vista fazendo compras em um supermercado Safeway. Por volta das 19h59, uma pessoa relatou tê-la visto depositando seu pagamento em um caixa eletrônico do Bank of Montreal, localizado no centro comercial Blundell Shopping Centre. Esses são os últimos registros conhecidos de Cindy em locais públicos naquele dia.Cindy havia combinado que seus amigos, Agnes e Tom Woodcock, fossem à sua casa naquela noite para jogar cartas e passar algum tempo com ela. Ela também tinha marcado com uma empresa, a instalação de um sistema de detecção por infravermelho para reforçar a segurança em sua casa.
Por volta das 22h, os amigos foram a sua casa mas não conseguiram encontrá-la. Encontraram a residência trancada e perceberam que o Chevrolet Citation de Cindy não estava lá. Então conversaram brevemente com uma pessoa que alugava um imóvel dela e souberam que Cindy havia mencionado anteriormente que sairia para fazer compras. Os amigos decidiram passar pelo Blundell Shopping Centre, onde sabiam que ela costumava ir. Foi ali que encontraram o carro da amiga, abandonado no estacionamento.Dentro do veículo, ainda estavam as compras de supermercado e um presente de aniversário embrulhado, destinado ao filho pequeno de um amigo. Também foram encontrados vestígios de sangue na parte interna da porta do motorista. Alguns objetos que estavam na carteira de Cindy foram encontrados debaixo do carro. Como seu crachá.

carro de Cindy estava abandonado no estacionamento do Blundell Shopping Centre, em Richmond, no Canadá. Crédito :JunkieCrime.
Naquele momento, ninguém sabia por que ela havia deixado o veículo ali ou como aqueles objetos tinham ido parar debaixo dele.Os amigos foram à delegacia da Polícia Montada Real do Canadá, (conhecida pela sigla RCMP,) em Richmond, para comunicar o desaparecimento. A polícia enviou uma viatura para investigar e começou a procurar Cindy.Naquela mesma noite, os policiais examinaram sua residência. A casa estava organizada, limpa e sem sinais aparentes de ter sido revirada. As autoridades também iniciaram buscas na região. A Guarda Costeira canadense participou de operações em rios da área e no estreito da Geórgia.Nos dias seguintes, Cindy continuou desaparecida. Alguns dias depois, o inquilino de Cindy relatou à polícia que havia recebido, no escritório, uma ligação de um homem que se identificou como pai dela e perguntou sobre o seguro de vida de Cindy. A secretária pediu que ele comparecesse pessoalmente. Quando questionado, o pai de Cindy negou ter feito a ligação. A identidade de quem realizou a chamada nao foi identificada.
14 dias após seu desaparecimento
No dia 8 de junho de 1989, o silêncio de Richmond foi quebrado de um jeito inesquecível. Escondida nos fundos de uma casa há muito tempo abandonada, a verdade finalmente apareceu — e era pior do que qualquer um podia imaginar. Ali, entre as sombras e o mato alto, estava um corpo. O pesadelo de sete anos havia chegado ao fim para Cindy. Para qualquer um que olhasse — até mesmo para os detetives que pisavam ali tentando entender a cena —, não restava dúvida: ela tinha sido brutalmente espancada. Seu corpo era um mapa assustador e extremamente triste de hematomas.
Fotos do local relacionado ao caso de Cindy James, cuja morte permanece envolta em mistério.Créditos: Unsolved Mysteries, Evalazaros e Medium.
O horror só aumentou com o resultado do exame toxicológico: havia uma dose fatal de morfina correndo em suas veias.Ela estava caída no chão, com pulsos e tornozelos firmemente amarrados. Uma das cenas mais perturbadoras que se pode imaginar. Só que aí entra a parte surreal desse desfecho… A polícia analisou aquele corpo espancado, torturado e intoxicado e, num piscar de olhos, decretou: foi suicídio. E não pararam por aí: chegaram ao absurdo de afirmar que ela tinha forjado a própria morte.Nos sete anos que antecederam sua morte, Cindy relatou quase 100 incidentes de assédio — cinco dos quais foram agressões físicas extremamente violentas. No entanto, com o passar do tempo, a polícia passou a duvidar de seus relatos. Mas os pais dela jamais aceitaram essa versão.
“Eles nunca trabalharam na hipótese de assassinato. Desde o início declararam que foi suicídio.” Otto Hack, pai de Cindy.
A cena onde Cindy foi encontrada revelava detalhes aterradores:
- Cindy estava caída em posição fetal;
- Suas mãos e pés estavam amarrados atrás do corpo por meias de náilon pretas;
- Uma meia de náilon preta estrangulava seu pescoço;
- Um pano amarrado em sua boca servia como mordaça;
- Seu casaco estava jogado a poucos metros;
A propriedade ficava em uma rua movimentada, perto de um cruzamento — e, mesmo assim, ninguém viu nada. Havia algo ainda mais macabro: no tanque de óleo abandonado ao lado da casa, alguém havia pichado com tinta spray laranja a frase:
“Acho que tem uma vagabunda morta aqui”.
Uma linha feita com a mesma tinta saía do tanque e se estendia até o exato local onde o corpo repousava.O que a autópsia revelouO exame necroscópico concluiu que Cindy morreu por uma combinação fatal de morfina, diazepam e flurazepam — uma dose dez vezes superior ao limite suportado pelo corpo humano. Mas é a partir daí que o absurdo se torna perturbador: o legista simplesmente não conseguiu determinar a causa oficial da morte, enquadrando o caso como um
“evento desconhecido”
— incapaz de classificar como homicídio, suicídio ou acidente. Ninguém jamais respondeu pelas agressões, invasões e ameaças devastadoras que Cindy sofreu ao longo de quase uma década. Foram anos de telefonemas anônimos na calada da noite, bilhetes macabros, animais mortos na porta e ataques físicos brutais. Um pedido desesperado de socorro que durou anos. E quando ela foi finalmente silenciada — amarrada, amordaçada e largada no mato —, o próprio sistema que deveria protegê-la cruzou os braços e declarou que nada podia fazer.
E o pior: o silêncio parece ter vencido. E pra você, o que aconteceu com Cindy?
FONTES E REFERÊNCIAS
1. Eve Lazarus — The Bizarre Case of Cindy James 2. Voices for Justice — Murdered: Cindy James 3. Voices for Justice — Podcast sobre Cindy James 4. The Minds of Madness — Episode 77: Cindy James 5. Stories of the Unsolved — The Death of Cindy James 6. Neal Hall — The Deaths of Cindy James (1991) Referência bibliográfica do livro.7. Vancouver Sun e The Province Arquivos jornalísticos canadenses sobre o caso.














