📍Icaraíma, Paraná | Brasil

🗓️ 04 de Agosto de 2025.

✔️Caso sob investigação. Suspeitos foram capturados e estão sob custódia.

11–17 minutos

Quatro amigos e a cobrança

No dia 4 de agosto de 2025, três amigos — Diego, Rafael e Robishley — saíram de São José do Rio Preto, em São Paulo, com destino a Icaraíma, no interior do Paraná. A missão era direta e tinha valor alto: ajudar Alencar Gonçalves de Souza a cobrar uma dívida de R$ 255 mil.Alencar, que já estava na região ou se juntou ao grupo pelo caminho, foi o responsável por contratar os três para a empreitada. O grupo foi visto pela última vez em uma propriedade rural de Icaraíma e, a partir dali, os quatro desapareceram sem deixar rastros. Diante do cenário e das evidências iniciais, a Polícia Civil do Paraná passou a tratar o caso não apenas como um desaparecimento, mas como homicídio.

Quem São os homens?

Imagem: Crédito: G1 Globo.

Alencar Gonçalves de Souza, 36 anos —

Teria contratado o grupo para ajudá-lo a cobrar uma dívida de aproximadamente R$ 255 mil, relacionada à venda de uma propriedade rural e a notas promissórias não pagas. A cidade onde morava não foi divulgada oficialmente. Familiares afirmaram que ele nunca havia desaparecido antes e estavam desesperados por notícias.


Diego Henrique Afonso, 39 anos —

Diego — Morador de Olímpia (SP), mantinha um relacionamento havia cerca de 13 anos com Fabrícia Pellini. Acompanhava os amigos em cobranças e, segundo a companheira, era tranquilo, trabalhador e dedicado à família. Pouco antes do desaparecimento, contou a ela que um dos envolvidos na negociação estava armado.


Rafael Juliano Marascalchi, 43 anos — Morador de São José do Rio Preto (SP), era casado, pai e avô. Ligado à família e à igreja, compartilhava nas redes sociais momentos ao lado da esposa e dos filhos. Trabalhava com imóveis de aluguel e, ocasionalmente, fazia serviços de cobrança. Familiares e amigos o descreviam como trabalhador e muito próximo da família. Durante seu desaparecimento, a esposa, Meire Souza, publicou mensagens emocionadas nas redes sociais.


Robishley Hirnani de Oliveira, 53 anos —

Robishley — Morador de São José do Rio Preto, era casado havia cerca de dez anos e pai de dois filhos pequenos. Trabalhava como vendedor e negociava carros, casas e sítios. Ocasionalmente, participava de cobranças com Rafael e Diego. Segundo pessoas próximas, tinha perfil discreto e era muito ligado à família. O desaparecimento foi registrado pela esposa, após perder contato com ele.

O Que Aconteceu?

Do início ao desaparecimento

Para entender como essa história terminou de forma tão trágica, é preciso voltar a 4 de agosto de 2025, quando quatro homens se encontraram em Icaraíma, no Paraná, para tratar de uma cobrança. Três deles moravam em São Paulo e trabalhavam com cobranças. Eles haviam sido contratados por Alencar, morador de Icaraíma, para ajudá-lo a receber uma dívida relacionada à venda de uma propriedade rural. O comprador, um fazendeiro da região, ainda não havia efetuado o pagamento, apesar das tentativas anteriores de Alencar para receber o valor. Os três amigos viajaram até o Paraná e se encontraram com Alencar. Juntos, os quatro seguiram para conversar com o suposto devedor, que compareceu acompanhado de um dos filhos. Ao final desse primeiro encontro, ficou combinado que eles voltariam a se reunir no dia seguinte, 5 de agosto, para tratar novamente da dívida e, segundo o que havia sido acertado, efetuar o pagamento. Mas o segundo encontro nunca terminou como esperado. Foi a partir daquele dia que os quatro homens desapareceram. Eles deixaram de dar notícias às famílias, não fizeram pedidos de ajuda e nenhum pedido de resgate foi registrado. A ausência de contato rapidamente chamou a atenção dos familiares. A esposa de Robishley, um dos desaparecidos, procurou a polícia e registrou o desaparecimento. A partir daquele momento, começaram as buscas pelos quatro amigos. Naquela mesma manhã, uma câmera de segurança de uma panificadora registrou o grupo pouco antes de desaparecer. Aquelas imagens se tornariam um dos últimos registros conhecidos dos quatro homens. E, enquanto as famílias ainda tentavam entender o que havia acontecido, as investigações começavam a revelar que aquele encontro para cobrar uma dívida escondia algo muito mais grave.

Último avistamento: as vítimas foram vistas pela última vez em uma padaria, em Icaraíma. Crédito: Polícia Civil/ Divulgação.


A carta

Os quatro desaparecidos e a carta anônima — Foto: G1 Globo. Reprodução.


As pistas que levaram a descoberta aterradora

Então, após os amigos se encontrarem e os quatro juntos irem ao encontro do fazendeiro para receber a dívida, eles pararam de entrar em contato com as suas famílias. O último avistamento registrado foi aquele da padaria e, de lá, as famílias não conseguiram mais contato. Nenhuma das quatro famílias conseguiu mais falar com eles. O celular não dava mais sinal de ligado, estava sempre desligado, e eles não respondiam às mensagens. Então, a polícia foi notificada desse desaparecimento e começou a trabalhar nesse caso. E tudo era um grande mistério, a princípio. Faltavam dicas, informações, pistas. Eles ainda não tinham, no início, acesso àquelas câmeras da padaria. Então, tudo ainda estava muito sombrio, muito nebuloso, muito misterioso. Até que uma carta… Uma carta que, até hoje, não se sabe por quem foi enviada, chega às mãos de um coronel. E nessa carta estão descritas todas as pistas para se chegar aos corpos dos quatro amigos desaparecidos e ao carro que esses amigos estavam usando naquele dia para aquele encontro. O coronel Hudson Leôncio Teixeira, secretário de Segurança Pública do Paraná, confirmou que uma carta anônima e também a ajuda de um informante foram fundamentais para que a Polícia Militar localizasse os corpos e a picape usada pelos amigos.

A carta diz que “os corpos dos homem [sic] estão no sítio […], Estrada da Jundiá na Mata do Tenente dentro do carro enterrado. O sítio é a 500 metro [sic] da igrejinha a esquerda. Eu investiguei um suspeito e ele me falou”.

O local onde tudo foi encontrado era de difícil acesso, cercado por mata e terra pesada, o que dificultou bastante o trabalho das equipes. As escavações exigiram o uso de máquinas, mas o maquinário inicial não foi suficiente. Novos equipamentos precisaram ser levados até a área, e as buscas continuaram durante a noite, em uma operação intensa e extremamente delicada.

Um dos bunkers onde os corpos foram encontrados. Crédito :reprodução / Rede Massa.


Por volta das 23h, as equipes encontraram os rapazes enterrados em bunkers. Próximo dali, estava o veículo das vítimas, também enterrado em um bunker.

A picape também encontrada num bunker. Crédito:G1 Globo.

Polícia Científica do Paraná participou da ação, sendo responsável pelos trabalhos de perícia no local e pelo recolhimento dos corpos.

A emboscada começa a ser revelada

Após algumas buscas e escavações, a equipe policial e os peritos conseguiram localizar a picape. E, logo próximo, estavam os corpos dos quatro amigos. A princípio, pelo que dava a entender na carta, os corpos estariam dentro da picape, mas não foi assim que eles foram encontrados. Naquele momento, a polícia já começava a entender que estava diante de um crime terrível. E, enquanto os trabalhos de perícia continuavam, as famílias ainda precisariam receber a notícia de que os quatro amigos haviam sido encontrados mortos. A teoria da polícia é de que as vítimas foram baleadas assim que chegaram à propriedade, em um ataque feito por pelo menos cinco armas de fogo de calibres diversos, em três pontos distintos. O laudo concluiu que uma das armas era um fuzil. Na emboscada, a picape foi atingida do lado esquerdo, na traseira e na frente. A polícia trabalha com a linha de investigação de que pelo menos cinco pessoas participaram do crime. Durante as buscas pelas vítimas na região, duas munições de calibre 9 milímetros foram encontradas na tarde de domingo (14). As balas estavam na propriedade vendida por uma das vítimas, Alencar, para os suspeitos, localizada próximo de onde o carro dos desaparecidos foi encontrado.

O pesadelo das famílias

Quando os corpos foram encontrados, já estavam em estado inicial de decomposição, o que tornou o trabalho da perícia ainda mais difícil. Segundo o delegado Gabriel Menezes, havia sinais aparentes de violência, incluindo possíveis marcas de disparos de arma de fogo. Mesmo assim, ele explicou que somente os laudos periciais poderiam confirmar oficialmente a causa das mortes. A identificação dos rapazes precisou ser feita, inicialmente, através das roupas e objetos encontrados junto aos corpos. Depois disso, os familiares foram chamados pelas autoridades para realizar o reconhecimento oficial.

Outro detalhe que deixou o caso ainda mais doloroso foi o fato de os quatro terem sido enterrados junto com seus próprios pertences, em um cenário que chocou até investigadores acostumados com crimes graves. Com o avanço das investigações e dos exames periciais, a polícia concluiu que os quatro homens não teriam sido sequestrados, mantidos em cárcere ou submetidos à tortura.

O que os laudos revelaram

A princípio, segundo os investigadores, as mortes teriam acontecido de forma rápida. Mas os laudos de necropsia apontaram para uma violência extrema.

Quando os corpos foram encontrados, já estavam em estado inicial de decomposição, o que tornou o trabalho da perícia ainda mais difícil. Segundo o delegado Gabriel Menezes, havia sinais aparentes de violência, incluindo possíveis marcas de disparos de arma de fogo. Mesmo assim, ele explicou que somente os laudos periciais poderiam confirmar oficialmente a causa das mortes.A identificação dos rapazes precisou ser feita, inicialmente, através das roupas e objetos encontrados junto aos corpos. Depois disso, os familiares foram chamados pelas autoridades para realizar o reconhecimento oficial.Outro detalhe que deixou o caso ainda mais doloroso foi o fato de os quatro terem sido enterrados junto com seus próprios pertences, em um cenário que chocou até investigadores acostumados com crimes graves.Com o avanço das investigações e dos exames periciais, a polícia concluiu que os quatro homens não teriam sido sequestrados, mantidos em cárcere ou submetidos à tortura.

A dívida que levou aos primeiros suspeitos

Durante a investigação, os policiais descobriram que existia uma cobrança relacionada a uma dívida de aproximadamente R$ 255 mil. O valor seria referente à venda de uma propriedade rural feita por Alencar à família Buscariollo. Segundo a polícia, o acordo teria sido dividido em dez notas promissórias de R$ 25 mil, mas nenhuma delas foi paga. A partir dessas informações, Antônio Buscariollo, de 66 anos, e o filho dele, Paulo Ricardo Costa Buscariollo, de 22 anos, passaram a ser apontados como suspeitos de participação no caso. No dia 7 de agosto, a polícia cumpriu mandados de busca e apreensão na residência da família. Pai e filho aceitaram acompanhar os policiais até a delegacia, onde confirmaram que realmente existiu uma negociação envolvendo a compra da propriedade rural. Mesmo assim, negaram qualquer ligação direta com a dívida ou com o desaparecimento dos quatro rapazes.

Desdobramentos do caso

Depois de prestarem depoimento e serem liberados pela polícia, Antônio e Paulo fugiram. Pouco tempo depois, mandados de prisão temporária foram expedidos contra os dois.

O desaparecimento chamou ainda mais atenção porque, segundo os investigadores, os familiares que moravam com eles também deixaram a propriedade rural e sumiram da região. Essas pessoas passaram a ser investigadas por possível envolvimento ou ajuda na fuga, mas os nomes não foram divulgados oficialmente. Com o avanço das apurações, a polícia passou a trabalhar com a hipótese de que os quatro amigos tenham sido atraídos para uma emboscada no momento em que foram até o local fazer a cobrança da dívida. Mesmo assim, os investigadores mantiveram grande parte do caso sob sigilo e, naquele momento, ainda não haviam divulgado oficialmente qual teria sido a motivação exata do crime.

Os principais suspeitos continuavam sendo Antônio Buscariollo, de 66 anos, e Paulo Buscariollo, de 22 anos. E aqui existe um detalhe importante: mesmo quando existem muitos indícios e suspeitas, a polícia precisa reunir provas concretas para conseguir manter alguém preso legalmente. Por isso, apesar das suspeitas levantadas durante a investigação, pai e filho acabaram liberados naquele momento.

A fuga, a defesa e a investigação que não parou

A defesa da família Buscariollo afirma que Antônio e Paulo são inocentes. O advogado Renan Farah declarou que a descoberta dos corpos em uma propriedade sem ligação direta com a família reforçaria a tese de negativa de autoria, ou seja, de que os dois não teriam participação nos homicídios. O advogado também não explicou publicamente por quais motivos eles não se apresentaram novamente à polícia.Enquanto isso, as autoridades intensificaram as buscas. A polícia divulgou fotos de Antônio e Paulo, realizou buscas em propriedades rurais e passou a investigar possíveis ajudantes e familiares que poderiam ter colaborado com a fuga. Dias depois, um homem foi preso em flagrante e um Fiat Strada branco, com placas adulteradas, foi apreendido. Os investigadores suspeitavam que o veículo pudesse pertencer à família Buscariollo, mas o motorista negou qualquer ligação com Antônio e Paulo. Outro ponto importante da investigação foi a divulgação de conversas entre Diego Henrique Affonso e Alencar Gonçalves de Souza. Segundo a polícia, as mensagens tratavam justamente do serviço de cobrança relacionado à dívida envolvendo a família Buscariollo e a venda da propriedade rural. Um detalhe que também chamou atenção foi a prisão de outro filho da família Buscariollo. Segundo a polícia, porém, essa prisão estaria relacionada a uma suspeita de tráfico de drogas e não diretamente ao assassinato dos quatro rapazes.

A família deixou a propriedade

De acordo com o delegado Gabriel Menezes, Antônio e Paulo deixaram Icaraíma apenas um dia depois de prestarem depoimento. Quando os policiais retornaram ao local onde a família morava, encontraram a propriedade completamente vazia.

Segundo o delegado:

“Constatamos que a família inteira havia fugido.”

Há indícios de que a família Buscariollo tenha ligação com o contrabando de cigarros e com o tráfico de drogas, e que esse esquema possa envolver a família com o crime organizado. Esses indícios ainda estão sendo investigados.As investigações apontam ainda que o combinado entre Diego e Alencar seria o pagamento de 50% do valor recuperado na cobrança.

Corrupção nas Investigações?

Um outro ponto delicado da investigação envolveu dois policiais civis de Icaraíma. A Corregedoria da Polícia Civil do Paraná passou a apurar a suspeita de que os agentes teriam repassado informações sigilosas sobre as diligências a Antônio e Paulo Buscariollo, o que poderia ter facilitado a fuga dos dois antes do cumprimento dos mandados de prisão.

Mandados de busca e apreensão chegaram a ser cumpridos em endereços ligados aos policiais, e o caso passou a ser investigado também na esfera administrativa. Até o momento, porém, não foi divulgada uma conclusão oficial sobre a responsabilidade dos agentes. A suspeita de um possível vazamento acrescentou ainda mais uma camada a um caso que já era cercado de dúvidas e que, por muito tempo, manteve os principais suspeitos longe do alcance da polícia.

Eles estavam foragidos por todo esse tempo

Atualização — 18 de agosto de 2026 | 15:29 horas

Mais de um ano após o desaparecimento e assassinato dos quatro homens em Icaraíma, a Polícia Civil do Paraná prendeu, nesta terça-feira (18), quatro integrantes da família Buscariollo, apontados pela investigação como envolvidos no crime. Foram presos Antônio Buscariollo e seus filhos Paulo Ricardo, Carlos Eduardo e Carlos Henrique. Um quinto investigado já estava preso por outro delito. Os suspeitos haviam sido incluídos na Difusão Vermelha da Interpol em julho de 2026, após meses de buscas. Segundo a investigação, Carlos Henrique Buscariollo é apontado como o suposto mandante do quádruplo homicídio. O crime teria sido motivado por uma dívida de aproximadamente R$ 255 mil, relacionada à compra de um imóvel que não foi concluída. Alencar Gonçalves de Souza Giron teria viajado até Icaraíma acompanhado de Diego Henrique Affonso, Rafael Juliano Marascalchi e Robishley Hirnani de Oliveira para cobrar o dinheiro. Carlos Henrique foi preso em Santa Bárbara d’Oeste (SP). Já Antônio e Paulo foram encontrados escondidos em um sítio na zona rural de Rio das Pedras (SP) e tentaram fugir pela mata, mas foram localizados com auxílio de drones equipados com sensores térmicos.Os presos deverão passar por audiência de custódia e posteriormente ser transferidos para Umuarama, no Paraná. A defesa nega a participação de Carlos Henrique na emboscada e afirma que ele possui um possível álibi. As prisões marcam uma nova etapa da investigação, que agora deverá esclarecer a participação individual de cada acusado e reunir as provas que serão submetidas à Justiça.

“Aquele que não pune o mal ordena que ele seja cometido.”

— Leonardo da Vinci

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